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Veranico

(Ensaio sobre o prazer. O prazer puro)

Era maio. Mais um desses períodos de lindas e frescas noites, com dias de reinado dos “sóis” do veranico que esquentam, suas tardes. Cleusa olhava no guarda-roupas e via aquele vestido que só usara uma única vez no Verão de muito calor. Era um belo vestido de linho branco. Custara suas economias de quase dois meses de trabalho. Mas ela não resistiu à sua tentação na vitrine.

Ia aproveitar aquele Verão fora de hora, de todo maio, e usá-lo para a festa do clube. Sabia que ficava bonita, atraente e que muitos olhares cobiçariam o seu belo corpo moreno.

Ali perto, num outro guarda-roupa, uma calça bege, também de linho, foi a escolhida para ser usada na mesma festa. Apesar de algum uso, era bem conservada. Praticamente nova. Dava elegância ao seu dono. Itamar, ainda que moço recatado, sabia que elas gostavam do seu corpo marcado pela calça.

O vestido deixara Cleusa deslumbrante. Sua pele bem queimada pelo sol contrastava com o branco do linho. Os seios rijos surgiam no decote com desejo de mostrar-se, sem vergonhas, só pelo prazer de exibir o belo.

Ali perto, a calça justa mostrava um corpo bem talhado, desenhado na academia do clube do bairro. Sentia-se um rei com aquele linho e uma camisa polo vermelha. Tudo bem justo ao corpo.

Saíram de casa, quase ao mesmo tempo. O ônibus não tinha horário confiável e nenhum deles queria chegar atrasado ao ponto.

A noite já chegara.

Uma noite quente para o veranico de maio. Mal deixara a casa e Cleusa sentiu um calor subir pelo corpo. Mas não era só o calor. Ela sentia uma sensação gostosa de aquecimento. Uma coisa lá de dentro. Não sabia explicar o que, mas sentia que era bom.

O mesmo calor e as mesmas sensações fizeram com que ele já transpirasse antes da primeira quadra vencida. Era um suor limpo, suave, penetrante. Como se os poros transpirassem para dentro. Era muito bom aquilo.

Ele chegara um pouco antes. A pele levemente umedecida.

Olhou para a direção em que chegaria o ônibus e viu aquele vestido branco vindo em sua direção. Os faróis dos carros mostravam dentro dele um corpo bem feito, pernas firmes, bem torneadas. Ela vinha em sua direção.

Não se conheciam.

Ela chegou e agora estava ali, ao seu lado. Docemente provocante.

O ônibus demorava. E o calor – externo e interno – aumentando. Um trovão forte, um relâmpago e o tempo mudou bruscamente. Sem nenhum aviso, como no Verão de verdade, a chuva começou. O abrigo era pequeno, daqueles de periferia, que mal cobre uma pessoa.

O vento, ainda que leve, levou os pingos da chuva para o vestido dela. O linho foi molhando e grudando, de baixo para cima. Revelando aquelas coxas escuras, maravilhosamente torneadas.

Ao mesmo tempo a água molhava a calça de linho ao lado.

No começo, ele não olhou para ela. Havia um misto de temor e respeito pela situação. Ele fora criado por família evangélica, de educação rígida. Não queria aproveitar-se da situação.

Mas os efeitos daquela chuva eram demais.

E ele olhou.

E seu corpo esquentava, ainda que atingido pela água fria. O calor subia pelas pernas e chegou a um ponto insuportável.

A esta altura da chuva, o corpo dela estava todo à mostra. O sexo estava ali, bem no alto das coxas. Um lindo ponto escuro. Ela virou-se e mostrou nádegas que pareciam obra de um bom escultor. Firmes e perfeitamente arredondadas. Sem saber, voltou-se em direção ao parceiro do ponto. E a chuva colocara seus seios totalmente à mostra, como desejavam estar desde o momento em que entraram naquele linho branco. Ela também não sentia frio. O calor a invadia.

Ficou insuportável quando cruzou seu olhar com o dele. Cleusa ferveu quando baixou os olhos e o viu avançando para ela, ainda que ele não tivesse dado um passo na sua direção. Sentiu um medo sem medo. Mas também era muito bom ser o motivo de tamanho desejo.

Eles ficaram se olhando. Ela sentiu que ele a penetrava, embora não a tocasse. Sentia o vai e vem do seu corpo em suas entranhas. E o seu, ainda que sem se mover, acompanhava os movimentos dele. Sentia suas mãos em seus seios firmes como nunca haviam sido tocados. Nas coxas, a força das mãos dele lhe dava mais prazer. Mas ela via mãos quietas, sem tocar nela.

Ele sentiu os lábios dela nos seus. Suas línguas invadiam suas bocas simultaneamente cheias de desejo. Elas se enroscavam sem pudores, ainda que não se encostassem. 

Agora, ele sentia os lábios dela se aproximando dele. Algo alucinante. Ele não conseguia acreditar seu corpo estar dentro daquela boca perfeita, gulosa.

Ela então começou a sentir tremores. Tremores que vinham lá de dentro. Do centro do seu corpo. Era como se fosse entrar em convulsão. Sentiu seu líquido quente descer pelas pernas.

Um líquido que não parou de correr e que virou uma enxurrada.

Olharam-se e entraram em transe.

Tremendo como ela, com jatos do seu líquido atravessando aquela calça de linho bege.

Vibraram juntos. As pernas falharam.

A chuva parou. Olharam-se pela última vez. Cada um voltou para sua casa, com as pernas bambas e o prazer dentro da alma.

Um vento frio, no portão de casa mostrou para ela que o veranico acabara.

E a chance de usar o vestido branco de linho novamente iria demorar a chegar.

Ele entrou em casa. Estava gelado.

Ela também chegou à sua. Tão gelada quanto.

Mas, em ambos, o calor da paixão sobreviveu.

Chico Lelis

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