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Ritinha, minha canoa e o fazendeiro

Este caso me foi repassado por um ex-jornalista da revista DBO Rural, e que durante muito tempo também militou em outros veículos da chamada mídia do campo. Fonte fidedigna, é claro.

O personagem da vez é o fazendeiro mineiro Tião Maia, falecido em 2005, que foi um dos maiores criadores de gado deste País. Por sua sociedade com o ex-presidente João Goulart e por divergências e perseguições, durante o regime militar, vendeu tudo por aqui e se instalou na Austrália, onde também expandiu seus negócios com gado de corte.

Antes disso, estabelecido em Araçatuba (SP), tinha fazendas que se estendiam por São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso (naquele tempo o estado nem tinha sido dividido em dois). Uma dessas fazendas era vizinha de uma ilha, no meio do Rio Grande, divisa entre Minas e São Paulo, local plano, de pastagem farta e muito propício à criação de gado.

Após ter alugado a ilha, o fazendeiro transferiu para lá algumas de suas melhores cabeceiras, como se diz no campo. Evidentemente, como precisasse de um bom capataz para cuidar do gado, instalou no local o Marcelão, caboclo forte, experiente, sisudo.

Como o olho do dono é que engorda os bois, vez em quando, Maia tinha o hábito de visitar a ilha para acompanhar a evolução de seu rebanho. Chegava na margem do rio, soltava um rojão (naqueles tempos não havia celular), e logo surgia o capataz, numa canoa, para levá-lo até o outro lado.

A cena se repetiu durante muito tempo, até que durante um certo período, ocupado com algumas viagens pelo Brasil e exterior, o fazendeiro não apareceu.

Nesse meio tempo, como ninguém aguenta a solidão de uma ilha, sucedeu de Marcelão se casar com Ritinha, uma das moças mais formosas da região, com quem namorava há muito tempo. Levou Ritinha para morar com ele e, evidentemente, para ajudá-lo na lida diária.

Pouco depois do casório, eis que Maia reaparece na margem do rio para observar o gado. Minutos após o rojão, surge a canoa conduzida pela bela Ritinha. Notório galanteador e conquistador, o fazendeiro (teria até inspirado o personagem Sinhozinho Malta, de “O Bem Amado”), que não fora informado do casamento do empregado, ficou impressionado com a beleza da jovem e, discretamente, passou a cortejá-la. “Como pode uma moça tão bonita perdida nestes ermos?” “Eu posso ajudá-la a sair daqui” “Tenho algumas casas na cidade, se quiser pode morar numa delas”, dizia durante o trajeto.

Entretido na conversa, Maia nem viu o tempo passar e, quando se preparava para desembarcar, a moça contou-lhe que tinha acabado de casar com Marcelão. Naquele dia, pareceu que o chão da ilha pegava fogo, tanto que o fazendeiro abreviou a vistoria dos bois e foi embora rapidinho.

Receoso, ficou muito tempo sem aparecer por lá, até que, premido pela necessidade de vender o gado, decidiu retornar. Como de costume, fez o sinal combinado e, não tardou muito, surge o capataz e sua canoa. Homem de muitas palavras, desta vez, Maia se acomodou mudo no cantinho do barco e lá ficou. Provável que estivesse preparado para pular ao menor sinal de perigo.

Às tantas, bem no meio do rio, é Marcelão quem fala: “Fiquei sabendo da sua conversa com a Ritinha da outra vez que o senhor veio aqui”. O fazendeiro começou a suar frio e já se preparava para cair na água, quando ouviu o complemento: “Liga não, doutor, às veis, ela ‘ridica’ (de negar) até pra mim.”    

Manoel Dorneles

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