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O nome certo no lugar errado

Descendente de italianos, dupla cidadania, o carioca Ricardo Di Biaggio morou cerca de seis anos em Roma, onde trabalhou como motorista de caminhão. Com a chegada do euro, a vida ficou mais difícil por lá, principalmente para quem ganhava pouco, e ele se viu obrigado a retornar ao Rio de Janeiro.

Procurou emprego para todo lado, sem sucesso, até que se ajeitou como motorista de táxi. Gosta de circular pela Zona Sul ou no máximo até o Maracanã, ali por São Cristóvão. Reza ao protetor dos motoristas para não pegar corrida para os bairros ao longo da Avenida Brasil, ainda mais, para a Baixada Fluminense.

Outro dia mesmo, não escapou de uma viagem até Duque de Caxias. Foi com o coração aos pulos, mas seu passageiro, visivelmente embriagado, era do bem. Até lhe ensinou um bom caminho para retornar, mas ele, na dúvida, foi atrás de uma segunda opinião. Mandaram-no para outro lado e, por muito pouco, ele não se perde na perigosa madrugada da Baixada.

Criado no Rio de Janeiro, conhece muito pouco de São Paulo. Vez ou outro leva um paulistano a passeio pela Cidade Maravilhosa. Dia desses levou a jovem Ana. Interessante. Ela também se interessou pelo rapaz, com pinta de galã do cinema italiano. “Ficaram” e, na despedida, combinaram de se encontrar na capital dos paulistas.

Ela mora no Butantã, Zona Oeste. No dia combinado, ele pega o ônibus e desce na Rodoviária do Tietê, onde Ana ficou de encontrá-lo. De repente, um casal se aproxima. “Você é o Ricardo?” “Eu mesmo, vocês vieram da parte de Ana?” Eles confirmam e o levam para fora do terminal onde o colocam no banco traseiro de um carro. Distraído e pouco afeito à cidade, como já disse, nem percebe que, em vez de o levarem para a Zona Oeste, dirigem para a região central.

Próximo à Praça da República, o carro para numa ruazinha estreita, na outrora chamada “Boca do Lixo”. A mulher desce e, às portas de um sobradinho, chama Ana pelo interfone. Ao ver a mulher, Ricardo se apavora, nada a ver com a pessoa que conhecera no Rio. Ela se aproxima do carro e constata que aquele também não é o Ricardo que esperava.

O motorista saca de uma arma e encosta na barriga do rapaz. “Qual é a tua cara? Quem é você, afinal?”. “Eu não sou a pessoa que vocês estavam esperando, não tenho nada comigo”, responde amedrontado, quando descobre que deveria ter trazido alguma “encomenda”. Mostra a identidade. O motorista, sempre com a arma ameaçadora no colo, e sua parceira decidem retornar ao Tietê. Param o carro nas imediações do terminal e tomam a direção da plataforma. Esperto, Ricardo consegue fugir em meio ao formigueiro humano. Deixa seus pertences para trás.

Aos poucos, quando não vê mais sinal da dupla, retorna à plataforma. “Ana (a verdadeira) o espera. Agora, sim, o rapaz é levado para o Butantã. No caminho, discute com a namorada o papel das coincidências em nossas vidas.

Ainda bem que passou um final de semana feliz. Domingo à noite, retornou à segurança de sua Zona Sul. Agora, é Ana quem vai visitá-lo. São Paulo é realmente muito perigosa!

Manoel Dorneles

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