Missão de vida

Dizem que todos nascemos com uma missão. Será? Se for verdade, ainda estou procurando a minha. Mas não se trata de mim. A história tem a ver com minha filha.

Em maio de 1979, quando houve a malfadada greve dos jornalistas, eu estava grávida de nove meses. Dois dias antes de começar a paralisação, minha filha resolveu que era hora de enfrentar o mundo. E lá fomos para o hospital, por volta das 21 horas, para o parto.

Três meses e meio depois, voltei ao trabalho na Folha da Tarde. Um adendo: naquela época, a licença maternidade era de apenas três meses e as mães conseguiam, depois, mais 15 dias, para “amamentação”. Foi quando eu soube que havia sido demitida, depois da greve, por ter participado da paralisação. E, também, tiveram de me readmitir, em seguida, porque a causa da minha ausência estava com pouco mais de três meses e meio e recebera o nome de Lucianne.

Numa redação onde imperavam machistas, estilo o genocida que preside o Brasil, é claro que as pouquíssimas mulheres sofriam bulying!!! Naquela época, nem tinha esse nome chique e nem era punido. Chamam-se, simplesmente, atos de humilhação.

Como eu não dava a mínima para o que diziam ou faziam, tentando me diminuir ou humilhar, resolveram voltar os canhões em direção a minha filha recém-nascida. Nunca faltei por causa de doença ou de problemas com filhos, o que diminuía a possibilidade de usarem “coisas de mulher’ contra mim. Então, eles apelidaram minha filha de “Grevinilda”.

Vai ver tinham dificuldade em pronunciar o nome dela: Lucianne.

Anos depois, ex-colegas, quando me encontravam, nunca perguntavam da Lucianne, só da Grevinilda.

Minha filha cresceu, se formou, passou em concurso público e se tornou servidora municipal. Um dia, há uns cinco anos, num sarau de sindicalistas, uma diretora da entidade que representava os servidores me informou que apoiaria a Lucianne na próxima eleição.

Como? Minha filha, dirigente sindical??? Minha filha???? Não!!!!!!

E eu, que nunca havia nem sido sindicalizada, me tornei mãe de uma sindicalista.

Missão de vida? Não sei, mas, hoje, a Lucianne é uma das maiores e mais ativas mobilizadoras de movimentos e de greves, em prol dos servidores públicos.

Como me sinto? Orgulhosa e dando uma banana imaginária para os machistas que a apelidaram de Grevinilda! 

Célia Bretas Tahan

4 comentários

  1. Acho que era mesmo o destino. Sempre tive essa inquietação dentro de mim, essa indignação com a injustiça e o exemplo de luta dentro de casa. Minha mãe não só criou eu e meu irmão com muita luta mas também aos 50 anos mudou totalmente sua vida, colocou o filho, dois gatos e uma cachorra no caro, viajou 3 dias pra chegar na cidade que hoje ela ama e que trouxe renovação pra ela. Ass. Grevenilda.

  2. Lutei, sim, pelos meus filhos. A Lu luta por um bem maior: para valorizar os servidores públicos municipais de São Paulo. Sinceramente, até hoje não sei onde encontrei coragem para dirigir 1.860 quilômetros, até o Tocantins. Já minha filha, tem coragem todos os dias, para enfrentar as dificuldades e os poderosos. Tiro o chapéu para ela!

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