Memórias do mundo cão

Não sei o que foi feito dela, não sei para que endereço foi, não sei o que tem hoje em seu lugar, mas antigamente havia uma grande churrascaria rodízio no começo da rua Carlos Vicari – ligação de quem vai do Centro, via avenida Francisco Matarazzo, em direção à Lapa, via rua Guaicurus – bem ao lado do viaduto Pompeia e do templo religioso “O Brasil para Cristo”, em São Paulo.

Pois foi nessa churrascaria que, no início de uma noite de junho de 1985, o diretor Mário Chimanovitch reuniu sua equipe para comunicar que a direção da Editora Três tinha decidido interromper a publicação da revista policial Agora.

O comunicado não nos pegou de surpresa, pois já havia sinais de que a revista seria “descontinuada”, como se diz hoje, mas a tristeza foi inevitável. Como uma pessoa que você sabe que vai morrer, mas a irreversibilidade da situação só é captada efetivamente quando ela entra em coma.

A revista era semanal e tinha acabado de mandar para as bancas seu número 50. Mais duas semanas, e teríamos completado um ano de vida. Mas sua morte era inevitável: apesar da excelente venda avulsa – diziam que quando saía, às quartas-feiras, derrubava drasticamente as vendas do jornal sanguinolento Notícias Populares – a Agora não tinha anúncios. Nem um rodapé de publicidade. Comentava-se que os vendedores de espaço comercial da Três tinham vergonha de oferecer anúncios para a revista. Não sei se era verdade.

Até podia ser. A Agora não era o que se pode chamar de uma revista convencional: de início em formato quase tabloide, ela chamava a atenção pela crueza de suas imagens. Fotos de cadáveres, com ou sem cabeça, campeavam em suas páginas – principalmente na capa, coloridas – e forneciam a dose necessária de sangue para suprir a morbidez inata do povão. Tinha uma banca de jornais na avenida Senador Queiroz, perto da Estação da Luz, que abria várias páginas da revista nas laterais e ficava até difícil passar pela calçada, pela quantidade de “leitores” que se acotovelavam nas imediações.

Mas a revista não era só as fotos. Era investigativa, tinha textos irretocáveis e uma edição primorosa. Grandes nomes do jornalismo policial preenchiam suas páginas: o próprio Chimana, Valério Meinel (no Rio), Ari de Moraes (o Napoleão), Celso Sávio, Nelson Townes, Assis Ângelo, Anselmo de Souza. Como era semanal, a apuração tinha de ser seu ponto forte – até a polícia às vezes se valia de informações que os repórteres garimpavam.

Agora era amada e odiada na mesma proporção. Alguns colegas torciam o nariz para a ela, outros a colecionavam. A revista chegou a ser alvo – e não existe palavra mais exata para definir a situação – de um debate na PUC, com a presença de Carlito Maia, Maria Vitória Benevides e Gabriel Priolli. Foi execrada do início ao fim: não entendiam como uma publicação com aquele grau de violência tinha permissão para estar nas bancas. A resposta era a mais simples e direta possível: violência vende.

Só que acabou. Seu pioneirismo resistiu 50 semanas e, além do vazio filosófico que se segue ao falecimento de um órgão de imprensa, custou a demissão de uma equipe considerável. Nelson Townes e o fotógrafo Tarcísio Motta até tentaram aproveitar o embalo e lançar uma sucedânea, mas faltou estrutura e cacife para manter o filhote além do segundo número. Os outros se viraram como puderam, e a vida continuou como continuaria em qualquer outra circunstância.

Agora não deixou herança, infelizmente. Nunca houve outra revista ao menos parecida com ela. Hoje, com a profusão de imagens chocantes nas redes, dificilmente ela provocaria o impacto que provocou. Passaria praticamente despercebida e não reuniria multidões em torno da banca da Senador Queiroz. Então, pensando bem, foi até melhor que ela terminasse daquele jeito – saindo da vida para entrar na história – com seu fim sendo anunciado numa mesa de uma enorme churrascaria rodízio.

Marco Antonio Zanfra

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