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Luzes, câmera…

Esta história aconteceu comigo, muito tempo atrás, quando eu ainda era um franguinho dando minhas primeiras ciscadas no terreiro da reportagem policial. Ou, se preferir levar dentro das normas rígidas da zoologia profissional, não era um franguinho, e sim um foca. Mas, como foca não dá primeiros passos, pois nem pé tem, difícil explicar em que fase da carreira eu estava.

Mas era lá, bem no começo, novinho ainda. Faz tanto tempo, que o terceiro distrito policial – que também faz tempo que funciona na esquina da rua Aurora – ainda nem estava lá na rua Aurora. Estava, aliás, nos Campos Elísios, que era onde deveria estar até hoje, já que se chama delegacia dos Campos Elísios. No lugar onde está, devia ser chamado de delegacia da Boca do Lixo. Mas isso não vem ao caso.

O que vem ao caso é que tinham prendido um estelionatário, aplicando lá um golpe que esses estelionatários aplicam, não me lembro qual, e levaram o meliante ao terceiro distrito. Que, aliás, esqueci de dizer, ficava na rua Vitorino Carmilo, menos de meio quarteirão abaixo da Lopes de Oliveira. Menos de dois quilômetros longe do jornal. Dava para ir a pé. Mas fui de carro, para contar a história do golpista, ou, como se falava então, do truta.

Faz muito tempo que não entro numa delegacia de polícia em São Paulo, e quando eu falo em muito tempo é muito tempo mesmo – coisa de quase quarenta anos. E então não sei como anda a decoração, a disposição das mesas, se tem cafezinho para as visitas, se o delegado de plantão fica numa posição em que, se você não tomar cuidado, tropeça nele… Mas naquele tempo, sim, especificamente naquela delegacia, você tropeçaria no pobre do plantonista ou em alguns de seus prepostos, de tanto que eles ficavam quase no meio do caminho!

O delegado da vez tinha seu lugar no andar térreo, do lado esquerdo de quem entra, sentado numa mesa de madeira maciça, dentro de um chiqueirinho. Chiqueirinho, aliás, era como a gente falava, por baixo do pano, mas aquilo era quase um pedestal, um santuário: ficava uns dez centímetros acima do piso e era cercado por balaústres de madeira torneada, tornando o policial um ícone pronto a reverências, uma figura aparentemente inacessível, a não ser depois de algumas mesuras, salamaleques, datas vênias e com licença, doutor.

Pois deu-se que nesses idos de minha vida passada entrei no prédio do distrito, olhei para a mesa, o delegado estava lá, e eu pensei: conheço. A cara dele me era bastante familiar, e, portanto, apesar de eu ainda estar engatinhando, de ser um franguinho – ou um foquinha, vá lá que seja! – em começo de carreira, pareceu-me que o delegado era velho conhecido.

E então me aproximei, confiante. Falei com licença, doutor, sem querer atrapalhar o trabalho, eu queria saber… Mas ele nem olhou para mim. Minto: olhou, sim; resvalou os olhos; relanceou-os alguns milésimos de milissegundos na minha direção, mas voltou-os rapidamente para o outro lado, para atender a uma outra figura conhecida que chegava e que apoiou as mãos no balaústre, inclinou a cabeça com ar cínico e disse alguma coisa ao delegado que dava a impressão de que era algo que o delegado deveria saber, ora que absurdo se ainda não sabia!

Essa figura conhecida era o radialista Gil Gomes, uma lenda do jornalismo policial na época. Não o tinha visto quando cheguei. Assim como não tinha visto uma enorme câmera de cinema de trinta e cinco milímetros que estava postada diante do chiqueirinho do delegado, do outro lado do saguão de entrada do prédio, distante uns cinco metros da mesa. Só vi a câmera, aliás, quando um rapaz magro, tão magro quanto eu, acendeu umas luzes fortes afixadas numa haste comprida e avisou com licença, aí, companheiro, que nós vamos gravar!

Do lado da câmera, havia uma cadeira estofada, dessas com braços, e o ator José Lewgoy estava refestelado nela, com ar blasé. Até hoje, quando ouço a expressão ar blasé lembro-me da cara dele! E foi só quando vi o Lewgoy que descobri por que o delegado me pareceu familiar: era também um ator, David Netto, que eu conhecia de novelas da tevê – sim, eu via novelas na tevê, ora pois!

E aí, só aí, me caiu a ficha, se bem que naquele tempo não se usava a expressão cair a ficha: aquilo tudo, apesar do ambiente real, não era real; era um filme, com o delegado e o Gil Gomes e o blasé do José Lewgoy como personagens. E por pouco eu não estraguei uma cena, não os obriguei a mudar o roteiro todo por causa do surgimento de um novo personagem – no caso, eu – tão ciente e partícipe da história quanto um professor de matemática que tive no ginásio e que não via nada além de equações de segundo grau e logaritmos.  

Mas, no final, deu tudo certo. Acabei não fazendo participação especial no filme ‘O Outro Lado do Crime’, lançado em 1978, no papel de um foquinha desavisado que por pouco não saiu da vida para entrar na ficção. Não vi o filme. Só sei que tratava da história de um marido que arrumou uma amante e que, falido depois de dar tudo para a amante, começou a arquitetar a morte da esposa para receber o seguro, sendo desmascarado por um repórter mais esperto que ele.

Gil Gomes, no caso, e não eu!

Marco Antonio Zanfra

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