Isso a Globo não mostra!

Permitam-me tratar do tema gratidão, que aliás tem muito a ver com os tempos natalinos em que vivemos. Lembrei disso a propósito das últimas demissões ocorridas na Rede Globo de Televisão. Partícipe do sistema capitalista, como a maioria de nós aqui, longe de mim criticar os critérios adotados pela empresa para a renovação de seus quadros. Como em todas as etapas da vida ou da sociedade moderna, é mais que necessária a limpeza do terreno, para a nova semeadura, o novo plantio. Neste caso, a Globo descobriu a necessidade de afastar os velhos atores, apresentadores e repórteres, alguns com mais de 40 anos de casa, para a chegada de novos integrantes, novos rostos, novas i deias.

Nessa última leva de cortes no jornalismo da emissora, sobrou, entre outros, para o pernambucano Francisco José e para a Isabela Assunção, repórter que conheci há uns 40 anos no dia a dia das reportagens paulistanas. Pouco mais de 30 anos, era quase uma menina ainda. Cansei de encontrá-la pelos corredores das delegacias e outras repartições, eu pela Folha de S. Paulo ou outro veículo, ela pela Globo. Sempre apressada, muitas vezes afoita, via-se que precisava cumprir várias pautas ao longo do dia. Agora, aos 72 anos, ainda fazia uma ou outra matéria para o Globo Repórter, com as eficiência e clareza de sempre. No entanto, já era visível (e audível) n a voz meio cansada o esforço natural de quem fez, por exemplo, uma pequena caminhada até a casa do entrevistado.

Ao ler a matéria sobre sua demissão, chamou a atenção um trecho em que Isabela narra a forma como foi desligada de seu trabalho. “Fria” foi o termo usado. Nenhum “obrigado”, nenhuma cerimônia, nada. Ou seja, mais de 40 anos de dedicação reduzidos a um simples comunicado de afastamento da função. Voltei no tempo, nas minhas andanças pelo jornalismo empresarial, e lembrei de como agiam algumas multinacionais, ao final de um contrato de trabalho de um funcionário, digamos, mais longevo.

Na frente dos demais colaboradores, algumas dessas corporações costumavam entregar ao empregado placas com agradecimento e dizeres alusivos ao seu desempenho. Outras o presenteavam com uma caneta Montblanc ou um relógio banhado a ouro. Mimos que talvez não viessem a ajudar em nada o “aposentado”, a partir daquele momento, mas que representam alguma coisa parecida com “gratidão” pelos serviços prestados à empresa.

É provável que tais práticas nem existam mais nos dias que correm, mas não há dúvida de que representaram uma aragem, um contraponto eficaz à “frieza” descrita pela agora ex-repórter. No meio futebolístico ainda há clubes que reconhecem o esforço e a dedicação de seus heróis com um busto, como nos casos de Ademir da Guia e do goleiro Marcos, do Palmeiras. No meio empresarial, evidentemente, um busto seria um baita exagero.

A propósito, se pode servir de consolo à Isabela, eu tenho um caso bem próximo para contar. Depois de 28 anos – seis como freelance, 22 como integrante efetivo dos quadros – amigo meu teve o seu contrato de trabalho rescindido. Ele editava uma revista customizada, voltada ao mercado em que a empresa atua. Aliás, foi praticamente o criador da publicação, que durante um bom tempo, reinou absoluta no setor. Em um tempo ainda sem a presença marcante das redes sociais, ela não só levava informação e divulgava a marca, como também era importante na consolidação das vendas, via telefone.   

Com o passar do tempo e o avanço das novas tecnologias, a revista continuou a oferecer conteúdo de qualidade e a funcionar como uma espécie de ferramenta de marketing. O aumento dos custos gráficos fez com que ela deixasse de ser impressa, restrita apenas ao online, até que, no ano passado, no auge da pandemia, a empresa decidiu dar um fim na publicação. Passado uns três ou quatro meses, o jornalista foi chamado e comunicado do final do seu contrato de prestação de serviços. Assim, sem mais. Claro, fez-se um acordo, claramente mais benéfico à empresa, e ficou tudo, aparentemente, resolvido.

Eu disse “aparentemente”, pois neste caso também faltaram a gratidão, o carinho, o “muito obrigado” cobrados pela Isabela da Globo. Erradas as empresas não estão, mas não custava nada aquele gesto que, se não paga as contas, pelo menos alimenta o ego de quem perde o seu ganha-pão. Bem-vindos ao capitalismo, dirão alguns, mas até quando tudo se resumirá ao toma lá dá cá do serviço prestado, pagamento recebido, e vice-versa?  

Manoel Dorneles

4 comentários

  1. Sei como é isso, Dorneles… dezembro pra mim foi um perrengue, graças aos meus ex-patrões das duas escolas que eu lecionava há anos. Nem feliz Natal me deram… bem, azar deles!

  2. E o Valmir Salaro vai resistindo. No enterro do Zé Luiz, em junho de 2011, ele me disse que ficaria apenas mais três anos – que, podemos perceber, ainda não transcorreram. Vai acabar seus dias do mesmo jeito que a Isabela (que, aliás, conheci quando ainda trabalhava no jornal O Globo; ela e a Aninha, do JB, irmã da Célia, eram minhas companheiras de pauta).

  3. Zanfra, você é “velho” de guerra, mesmo! E, Dorneles, sempre foi assim. No Estadão, vi muitos casos, como a Fernandinha (Maria Fernanda Andrade) e do Miltinho (Milton Ferreira da Rocha). O Miltinho estava doente, quando o afastaram. Fui mandada embora de muitos lugares, a maioria das vezes, por causa do meu gênio “maravilhoso”… Hoje, como concursada no Estado do Tocantins, serei dispensada aos 70 anos. E, claro, sem um “muito obrigada”. Sabe de uma coisa? Não dou a mínima! Sei o que sou e o quanto contribui. A opinião do patrão não afeta em nada a minha vida!

    • Bota ‘velho’ aí! Mas um velho de boa memória: não me esqueço de uma passagem com sua irmã, em que o rei Juan Carlos, da Espanha, quase caiu da cadeira ao se virar para vê-la passar. Foi no restaurante do extinto Hotel Ca’d’Oro, e a Aninha estava no auge de sua beleza! A ponto de quase derrubar a realeza!

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