Ele, Osório, está com 84 anos. Ela, Anita, também.

Foram namorados no início dos anos 60, mas namoraram apenas três meses. O suficiente para descobrirem que, entre ambos, havia uma tremenda diferença de valores, de visão, de gostos… de tudo! Menos de idade… ainda que ela fosse apenas 4 meses mais velha.

Ele gostava de rock… Bill Haley and his comets, Chuck Berry, James Brown… acabou virando um visceral beatlemaníaco. Ela odiava rock, som de guitarra, música em alto volume… amava bossa nova, João Gilberto, Tom, Vinicius.

Quase nunca iam ao cinema. Nunca dava certo. Porque ela amava os musicais… Fred, Gene, Connors e ele adorava terror e far west… Wayne, Lancaster, Karloff, Lugosi, Lee…

Nunca iam a restaurantes. Nem pensar! Às vezes ele, carnívoro de se deliciar com cutícula, ia sozinho na L’osteria do Piero comer um filé a parmegiana. Ela, vegetariana de mostrar crachá, às vezes ia sozinha no Almanara comer charutinhos de folhas de uva e abobrinha recheada com arroz marroquino.

Beber, ele só bebia destilados… whisky, vodka, qualquer tipo de Schnaps e até Arak, se tropeçasse numa garrafa. Ela odiava bebidas fortes, mas às vezes tomava um cálice de vinho do porto. Vez ou outra, no almoço ou na janta (nunca nos dois), se permitia uma dose de Adriano Ramos (ela evitava pronunciar Pinto).

Livros… ele devorava Sidney Sheldon, pocket books de far west e era assíduo frequentador de Seleções, particularmente “Flagrantes da Vida Real” e “Piadas de Caserna”. Ela lia e relia Camus, Hugo, Eça e, somente no cabeleireiro, folheava (apenas folheava) algum exemplar de Cláudia.

Claro que esse namoro era impraticável, mas chegaram a cogitar casamento. Quem sabe uma vida a dois os ajudasse a um entendimento, à prática de um exercício de concessões. Um cede aqui, outro cede ali… por quê não?

Bem, ele queria um casamento na igreja, com padrinhos, madrinhas, chuva de arroz e rega-bofe no salão de festa da igreja. Ela queria algo mais discreto. Somente casamento civil e apenas a participação de ambas as famílias. No final, apenas um drink com Adriano Ramos P…

Não chegaram a um acordo. Mesmo porque ele queria fazer a lua de mel acampando na praia de Perequê… churrasquinho, caipirinha de vodka, violão em volta da fogueira. Iriam de moto. Ela adoraria ir de carro para um chalé em Campos do Jordão… chocolate quente, biscoitos amanteigados e bombons trufados.

Por isso, não se casaram. Separaram-se e nunca mais se viram. A vida os levou para caminhos diferentes. Apesar disso, o amor, essa força misteriosa que sempre inquietou a humanidade, ainda manteve, por anos a fio, uma pequena chama-piloto acesa no coração de cada um.

Quase 60 anos depois, eis que um belo dia, que sempre os há, ele decidiu ir almoçar na L’osteria do Piero. Domingo, casa cheia. Não havia mesas vazias. Empurrando o andador, ele se aproximou de uma mesa com apenas uma ocupante. Caberiam duas pessoas tranquilamente.

Perguntou a ela se poderia ocupar uma das cadeiras. Ela, cortando um pequeno naco de seu filé a parmegiana, assentiu delicadamente tomando um pequeno gole do seu Ballantines 12 anos. O garçom o ajudou a sentar-se, colocando seu andador ao lado do andador dela.

Ele pediu brócolis ao alho e óleo e um peixe grelhado. “E pra beber, senhor?” Pediu uma dose de vinho do porto… Adriano Ramos… Adriano Ramos… não se lembrava do nome completo do vinho.

— Pinto! — completou ela

O garçom anotou o pedido e se retirou. Ele virou-se para ela, semicerrando o olhar…

— Sabe… —  disse ele —  … por um momento pensei que você fosse uma pessoa que conheci há muitos anos. Mas quando eu vi você comendo esse filé e tomando whisky eu disse… não, não pode ser ela.

— Engraçado… — disse ela passando o guardanapo nos lábios — eu também tive a mesma impressão. Mas quando vi você pedindo brócolis e peixe, também pensei… não, não pode ser ele.

— Pois é… e você tomando um whisky e falando “Pinto”… eu disse: realmente não é ela mesmo!

— Sim… eu tomei muito Adriano Ramos Pinto, mas hoje prefiro um 12 anos de boa marca! Em casa, eu tomo Jack Daniell’s ouvindo o Sargeant Peppers…

— Sério? — perguntou ele —  Ouvi muito os Beatles. Hoje prefiro ouvir Tom e aquela batida suave do violão do João Gilberto…

— Mas que indelicadeza a nossa! — disse ela estendendo a mão — Nem nos apresentamos! Meu nome é Anita… e o seu?

Ele estendeu a mão, perplexo…

— Osório!

Numa fração de segundo, que durou uma eternidade, as mãos se apertaram, ambos os corações dispararam e um filme, de edição frenética, passou rapidamente para os dois… Bill Haley, Tom Jobim, Beatles, Gene Kelly, John Wayne, saladas, filés, Sidney Sheldon, Eça de Queirós, Ramos Pinto, Schnaps, chocolate quente, bombons…

Soltaram-se as mãos. Ela cortou mais um pedaço do filé e ofereceu a ele. Aceitou, tomando um gole do whisky dela. Ela espetou um brócolis do prato dele e deu um gole no Adriano dele.

— Depois deste almoço… —  disse ela com olhos molhados e brilhantes —  … a gente poderia dar um passeio pela alameda aí fora…

— No meu andador ou no seu? —  respondeu ele com um sorriso triste.

Aurélio de Oliveira

6 comentários

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  1. Fã de carteirinha do Aurélio! A crônica me surpreendeu pois não conhecia, prendeu a atenção (como sempre) e terminou de forma doce e com um leve toque de humor, como eu gosto. Amei!