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Assim caminhava a humanidade

Tem dia que parece noite. E tem noite que nunca acaba. Principalmente quando se está trancado em casa, num dia chuvoso, escuro, depressivo. Vendo a alegria, que os raios de sol poderiam proporcionar de manhã, saudando nosso dia, ser levada pela chuva e escorrer pela sarjeta.

Vou até a janela, emblemática nestes tempos obscuros, e tento encontrar algum alento entre raios e trovoadas. Melhor entender os fortes pingos que caem como uma dança ritual, se é que podemos encontrar alegria nesse imaginário. De qualquer forma, torrencial ou garoa, a chuva é boa e tem sua função na natureza.

Só não ouço os pássaros, que se aninham nessas horas molhadas. Mas vejo uma folha larga de árvore juntar água, pender para soltar a água e voltar a se endireitar e acumular mais água, como um monjolo movido a água. Repetidamente num balé, acompanhando o ritmo da chuva. Um dia de chuva é um dia sem sal. E chove há três dias.

Os galhos finos das árvores também balançam enquanto os longos fazem uma reverência, curvando-se ao peso dos pingos, como uma saudação dos cortesãos à chuva, uma rainha da natureza.

E, pensando cá comigo mesmo trancafiado, em como caminhava a humanidade antes dessa pandemia, logo me lembrei que os nossos ídolos ainda são os mesmos, estando nós livres ou trancafiados, e descobri que Bob Dylan gravou novo disco, Falso Profeta.

A letra começa “outro dia que não termina. E como falso profeta que não sou, eu sei apenas o que sei e irei aonde apenas os solitários poderão ir”. Quase um nowhere man, dos Beatles.

Mas, num dia escuro como o que descrevo, que nunca termina, não dá nem para cantar, ouvir música. O silêncio fala mais alto. Como se o tempo, apesar da chuva, estancasse de repente. Ecoando: a humanidade nunca mais caminhará como antes. Ou como dizem os filósofos, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.

Ou como disse o pai da química, Antoine Lavoisier, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Como será o caminho da humanidade no futuro?

Na dúvida, na chuva, na fazenda vamos fazer um novo caminho diariamente, um passo por vez e tentar encontrar o amanhã, um futuro tão próximo que parece tão longe.

Caminhar junto ajuda. Antes, de mãos dadas, como caminhava a humanidade. Agora, o isolamento nos consome num dia escuro e chuvoso. Alerta!

Nada será como antes. Vamos aprender ou reaprender a apreciar as coisas simples da vida, tipo um “back to basic” e valorizar mais o isolamento, a chuva, a dança das folhas das árvores e a preparação da natureza durante o Outono para enfrentar o Inverno.

As árvores perdem as folhas no outono como forma de se preparar para a dormência do Inverno e economizar energia para o renascimento na Primavera.

Quem sabe teremos uma Primavera feliz.

Nereu Leme

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