Abrace uma vaca

Se o estimado leitor está pensando seriamente em aproveitar esta que parece estar-se tornando a coqueluche do momento, que é a sensação de relaxamento causada graças ao aconchego afetuoso a uma enorme bovina, especialmente da raça holandesa, é necessário que, principalmente no caso do Brasil, preste atenção a algumas considerações:

1 – Apresse-se. As vacas tupiniquins têm o estranho hábito de dirigir-se rapidamente ao brejo e, nesses casos, tornar-se-á perigoso e provavelmente fatal abraçar-se a um grande animal dentro de um atoleiro. É necessário, antes de qualquer coisa, certificar-se de que a intenção da bovídea não é partir imediatamente para o lodo. Como garantia extra, é bom tratar da imobilização de suas patas com cordas. Fortes cordas.

2 – Certifique-se de que o animal esteja em estado letárgico. Melhor ainda se estiver anestesiado. A vaca não é um ursinho de pelúcia que você pode colocar no meio das pernas, em posição fetal, e deitar-se na cama. Ela tem sentimentos, e pode expressá-los de maneira pouco delicada. Diríamos até de forma destruidora. Melhor começar com um bezerro, que pesa apenas cerca de 200 quilos e provocaria menos estragos.

3 – Essa história que aprendemos na escola de que “a vaca no dá o leite, a carne e o couro para fazermos sapatos e bolsas” é papo furado. Nos dá, o cacete! O bicho é tocaiado, colocado em fila indiana, leva uma marretada na cabeça e a carne e o couro são retirados dele sem o seu consentimento. Juro. Até para tirar-lhe o leite o humano lança mão do subterfúgio de manter o bezerro atrelado a suas patas, para que ela tenha a ilusão de que o está amamentando. Cuidado, pois! Vai que a vaca resolva cobrar a conta de toda sua ancestralidade!

4 – Você já chamou alguma mulher de vaca em tom elogioso? Não, né? Então, coloque-se no lugar dela (da vaca): quem gostaria de ter sua imagem associada a coisas ruins, daninhas, inescrupulosas, amorais? Faz bem para o ego dela? Preste atenção, porque de repente a vaca animal pode tornar-se uma vaca humana!

5 – O homem costuma ter com as vacas uma relação tóxica, abusiva. Aproveita-se delas o máximo que pode e jamais – a não ser agora, com essa onda nascida na Holanda do koe knuffelen – dá-lhe carinho, assistência, afago, um cartão do Dia dos Namorados… Pelo contrário, abusa delas: que animal vocês acham que protagoniza os festins sádicos das touradas, da farra do boi, da festa de San Fermin? E vocês querem que um animal assim espoliado seja seu esparro num momento iogue, de relaxamento?

Sobre essa onda de usar a vaca como ombro amigo, a BBC explica: “A temperatura corporal mais quente, o batimento cardíaco mais lento e o tamanho gigantesco da vaca podem fazer com que abraçá-la seja uma experiência incrivelmente relaxante e aconchegante. Semelhante a abraçar uma enorme bolsa de água morna.”

Tudo bem, até pode ser, concordamos. Desde, porém, que se observem as considerações acima.

Caso contrário, entre uma ‘enorme bolsa de água quente’ de 700 quilos que pode ter reações inesperadas e impensadas, como qualquer ser irracional – não se esqueça jamais do conceito ‘vaca louca’ – prefira uma bolsa de água quente em tamanho natural.

Marco Antonio Zanfra