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A ilha submersa

Era uma ilha bem distante. Quase no meio do oceano e muito longe do continente. Isolada e misteriosa, não constava de qualquer mapa cartográfico.

Na prática, não existia para o mundo exterior, pois ninguém a conhecia.

Mas, era habitada. Por um povo altivo, nobre, e muito desenvolvido. Conhecia muito bem a técnica de seleção natural de diversas plantas e animais, em busca de maior produtividade de alimentos para suas famílias. A colheita do milho era sempre farta. As galinhas enormes e carnudas botavam grandes ovos diariamente. Uma refeição proteica completa.

E a pesca de peixes e crustáceos, principal fonte de sobrevivência, era mais do que abundante.

Os habitantes da ilha guardavam uma riqueza indescritível. Enormes pérolas negras que os jovens mergulhadores recolhiam nas profundezas do mar, como forma de diversão para eles e adorno para as mulheres.

Nessa pesca preciosa, ficavam no fundo do mar quase sem respirar. Não utilizavam qualquer equipamento de mergulho, embora pudessem desenvolvê-lo, tamanha era a criatividade e destreza com a invenção de melhorias para as atividades do seu dia a dia. 

Divertiam-se testando o limite de seus pulmões. Dois, três, às vezes quatro minutos embaixo d’água sem respirar.

Diziam, galhofamente, serem descentes de peixes. Embora acreditassem na evolução das espécies, algo parecido com a teoria de Darwin, e fossem muito espiritualistas e devotos a Deus. Eram brincalhões e alegres. Valorizavam muito a vida e a natureza. Todos amavam viver naquela ilha de sonhos.

Dominavam o fogo e faziam artefatos de ferro fundido e aço. No entanto, não as usavam como armas de guerra, já que eram totalmente pacíficos. Usavam essas armas apenas para caçar e se defender de animais predadores.

Os habitantes dessa ilha intrigante tinham habilidades especiais para moldar o vidro. Em suas praias existia uma espécie de areia muito pura e fina que os ilhéus usavam para fazer vidro temperado. Com seu fôlego de mergulhadores, sopravam e moldavam as peças que desejassem.

Usavam areia, sódio, cálcio e outros componentes químicos, como óxido de chumbo para dar ao produto transparência e muita resistência. Um tipo de cristal temperado e blindado, totalmente inquebrável.

Além da areia especial, a ilha era formada por pedras utilizadas na construção de casas e lava vulcânica que servia de liga ou cola para juntar as pedras e até mesmo o vidro.

Com o uso desses materiais, as edificações eram todas de formatos artísticos e cheios de curvas, numa mistura delicada de pedra e redomas de vidro. Bonitas e aconchegantes, mas ao mesmo tempo muito resistentes, as casas abrigavam e protegiam os habitantes contra intempéries, como fortes ventos e chuvas torrenciais, e ataques de animais selvagens.

Tudo levava a crer que a pequena civilização – a população total da ilha era de apenas dois mil habitantes – iria crescer e se expandir para fora das fronteiras da ilha paradisíaca.

Porém, num belo dia de sol e de descanso para os ilhéus, aconteceu o imprevisto. Um estrondo anunciou a abertura de uma falha geológica bem abaixo da porção de terra que um dia longínquo havia sido um vulcão.

A ilha balançou, tremeu e começou a afundar. Como um navio adernado, a parte sul da ilha foi sendo engolida pelo mar. Os moradores dessa região tiveram que sair às pressas e se mudar para o centro da cidade. 

Uma inundação como essa nunca havia acontecido antes.

Logo, os dirigentes da ilha colocaram os sábios para estudar o fenômeno e indicar uma solução.

Os estudos indicaram um prognóstico sombrio. Tudo apontava para uma perda inevitável da ilha. Ela estava mesmo afundando. Cedo ou tarde, de acordo com os cientistas locais, a ilha paradisíaca e misteriosa iria desaparecer. Repousar totalmente no fundo do mar.

O que fazer?

Ninguém queria abandonar a ilha para viver no continente. Ouviam histórias aterradoras de lutas e massacres de aldeias inteiras, nas disputas dos povos dessas regiões pela posse da terra e domínio dos mais fracos. 

Eles não queriam essa vida!

Alguns pensaram até em se mudar de planeta. Já dominavam, apenas na teoria, a técnica de construir uma aeronave que singrasse o Universo em busca de um novo paraíso. Porém, nunca haviam construído nada parecido. Não havia necessidade até então.

Mais prático e mais perto de tudo, surgiu o plano do Albert Einstein deles. 

O velho cientista mandou os artesãos construírem redomas de vidro temperado em volta de todas as casas que ainda não tinham esse tipo de decoração. E em volta ilha, na parte ainda não inundada, seria erguido um grande muro de pedras e a partir de uma determinada altura segura, uma gigantesca redoma de vidro com várias camadas de proteção.

Grandes tubulações, também de vidro, interligariam a Redoma-mãe (a grande bola de vidro em torno da ilha) com as bolhas de vidro sobre as casas. Por esses canos transparentes também coletariam a água do mar para produzir o oxigênio necessário à vida humana na futura cidade submersa e energia para iluminação.

A ideia foi imediatamente aceita por todos. Colocaram mãos à obra e partiram para a empreitada, um trabalho que seria árduo, mas extremamente compensatório.

Todos ficaram felizes. Não precisariam abandonar a adorável ilha. E tinham tempo necessário para construir tudo, antes de toda a porção de terra ser completamente sugada pela água.

Tempos depois, toda a proteção em vidro estava completa. No teto, acima da montanha mais alta, deixaram uma claraboia, uma abertura que somente seria fechada no último instante da inundação fatal. Os habitantes ainda queriam apreciar o céu, o sol e as estrelas, como se podia dizer, ao ar livre. Sem a interferência do vidro, mesmo ele sendo transparente como um cristal.

E assim foi feito. 

Nesse meio tempo, testaram todos os equipamentos para extrair oxigênio da água do mar. Fizeram ensaios de resistência das redomas de vidro. Uma a uma. Tudo perfeito!

A inundação total da ilha e seu afundamento completo tinham hora prevista calculadamente para ocorrer.

Uma grande festa de despedida do céu foi feita uma noite antes do momento final. Então, uma grande engrenagem, movida por polias e roldanas, desde o solo, movimentou o fechamento da cúpula redentora que iria manter a salvo toda a população da ilha.

O que estava previsto se realizou.

A ilha e toda a cidade e seus habitantes foram parar no fundo do mar, numa viagem silenciosa e escura. Muitos não conseguiram dormir durante a viagem que durou três dias e três noites. Alguns prenderam a respiração como se estivessem mergulhando em busca das ostras, popularmente chamadas de ostras-dos-lábios-negros, que escondiam as resplandecentes pérolas negras.

Quando a ilha estacionou por completo, todas as luzes se acenderam e a vida retomou seu ritmo anterior. Ainda demorou algum tempo para as pessoas se habituarem à nova condição existencial.

Surgia uma nova civilização!

Até o dia em que Sano, filho do rei Marno, saiu para nadar nas profundezes oceânica, que ele tão bem conhecia em seus mergulhos esportivos. Saiu pela sala de descompressão, um ambiente lacrado que interliga uma sala seca e outra cheia de água, permitindo aos habitantes da ilha entrar e sair do mar sempre que desejassem, sem que a água invadisse a redoma de vidro.

Ficou cinco minutos verificando se a ilha estava bem assentada no fundo do mar. E estava. Mas, na cidade, seus amigos se preocuparam com sua integridade. Nunca ninguém havia ficado tanto tempo sem respirar.

Quando voltou para a redoma, Sano explicou que vinha treinando essa técnica de ficar sem respirar ou respirar parcialmente dentro d’água. E todo mundo quis aprender.

Logo, os mergulhadores eram como peixes dentro d’água. Com o treinamento no fundo do mar, passaram a ficar até 10 minutos sem o oxigênio da redoma. E os sábios puseram-se a analisar o feito.

Descobriram que antes de mergulhar, os habitantes da ilha, homens e mulheres, mascavam uma planta do tipo suculenta, típica do lugar, para hidratar os lábios e evitar que a água salgada ressecasse suas bocas. Perceberam também que ao encher a boca de água e depois devolvê-la o mar, a tal planta ajudava a transformar o H2O da água em oxigênio. Um óleo contido na planta quebrava a molécula de hidrogênio, deixando apenas o oxigênio que era, então, aspirado para o pulmão.

Os cientistas isolaram o óleo da planta e chegaram à conclusão que bastava uma colher desse óleo para a pessoa ficar um dia inteiro no fundo do mar, respirando como um peixe.

As experiências não pararam por aí. As crianças pequenas passaram a receber o óleo em suas mamadeiras. O resultado se mostrou promissor. O efeito da separação do hidrogênio e do oxigênio alcançava vários dias. Tratada com o óleo da planta suculenta, as futuras gerações teriam a possibilidade de respirar indefinidamente debaixo d’água.

Foi uma descoberta revolucionária!

No futuro seria a salvação dessa espécie humana, meio peixe, que habitara a ilha, agora submersa.

Todas as ações, a partir daí, se voltaram para a vida no mar. A redoma de vidro, que protegia os habitantes e garantia o fornecimento de oxigênio, já não era necessária para mais de 80% da população dos ilhéus.

Ainda bem porque com o tempo, as redomas foram rachando e desmoronando. As poucas que ainda restavam abrigavam os habitantes mais velhos, que não conseguiam respirar por muito tempo dentro da água.

Até que um dia, toda a população da antiga ilha estava apta a retirar oxigênio da água. Ou seja, 100% dos seus habitantes, já podiam viver fora das redomas. Fizeram uma grande festa no fundo do mar. Houve até casamento coletivo dos homens-peixe entre corais e algas. 

A ilha submersa passou a ser apenas um local de recordações e diversão para os jovens que adoravam entrar e sair das velhas redomas de vidro cheias de buracos. Mas, em uma redoma, que ficou intacta, um jovem cientista começou a fazer novos experimentos, desta vez para explorar outros mundos no universo infinito. 

Era a busca de novos desafios para a civilização mutante.

Nereu Leme e Felipe Leme Xavier

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