Vodu (*)

Não vou mentir para vocês: estou começando a me dedicar aos estudos dos rituais do vodu. Minha intenção é apelar para o ocultismo para resolver coisas que quem deveria resolver não resolve. Cansei de esperar ‘as instituições’ – que estão funcionando como sempre, ou seja, mal e porcamente – botar freios e acabar com os desmandos, as atrocidades e os devaneios psicopatas de uns e outros. Meu propósito com essa arte é arrumar um jeito de reparar erros de conduta de muita gente por aí afora.

Minha intenção, para ser absolutamente sincero, é partir para a punição. A dor pode ser usada como instrumento eficaz para corrigir algumas incongruências da alma. Principalmente a alma de quem considera catártico o sofrimento físico, se me entendem. No caso do vodu, o caráter educativo da dor é ainda mais efetivo, porque se mistura ao medo: o educando não sabe de onde vem e para onde vai seu martírio. Pode tanto doer na ponta do dedão no pé esquerdo quanto na boca do estômago. E pode doer uma vez na ponta do dedão do pé e três ou quatro vezes no estômago. Ao gosto de quem comanda o ritual.

Quem acha que pode fazer o que quer porque ‘as instituições’ não estabelecem até que ponto o abuso é tolerado – como crianças a quem os pais não mostraram limites – vai pagar com a dor.

Antes de optar pelo vodu, pensei em liderar uma revolução armada que restabelecesse os conceitos humanistas que até recentemente vigoravam no país, mas desisti, porque não tenho mais idade para pegar em armas. E minha pontaria é péssima: sou incapaz de acertar uma caixa de fósforos num tiro-ao-alvo de parquinho. O vodu surgiu como um alento, como algo ao meu alcance. E, pelo li no Google, não é tão difícil.

Se quiser causar mal a alguém usando um boneco vodu que represente essa pessoa, segundo li na rede, você pode utilizar alfinetes ou agulhas comuns, corda, arame, água ou outro dispositivo de tortura que preferir. Então, usando a técnica de concentração, foque na pessoa à qual deseja fazer mal e nas ações que está realizando. Uma foto dessa pessoa costurada à cabeça do boneco, no ponto onde deve estar o rosto, ajuda a evitar erro de endereço. Antes, é necessário sacrificar uma galinha – pode usar um bode, mas sai mais caro – e despejar seu sangue sobre o altar.

É tiro e queda. Alguns destinatários do feitiço podem precisar do sangue de mais de uma galinha, por causa do excesso de maldade que carregam. No caso de um poderoso mandatário, por exemplo, faça convênio com uma granja, para conseguir abatimento. Para afetar alguém ligado ao meio ambiente, prefira o sangue de uma galinha caipira. Para alguém ligado a atividades internacionais, arranje uma galinha d’angola.

Pronto. Pretendo iniciar minha cruzada punitiva mantendo o anonimato. Mas, se alguém descobrir e um certo ministro quiser criminalizar meus atos, enfio dois alfinetes grandes e com cabeça vermelha bem no meio da carequinha dele.

(*) É brincadeira, gente! O vodu é uma antiquíssima religião africana que chega a se assemelhar ao candomblé brasileiro. Essa história de espetar bonecos para produzir dor ou quebrar pescoços é um mito criado e alimentado principalmente pelo cinema. No texto da revista Superinteressante, a gente pode entender melhor:

“Os famosos bonecos de vodu são como amuletos e atraem sorte, saúde, dinheiro, amor… Eles são decorados com diferentes cores, dependendo do pedido da pessoa, e devem ser colocados em uma estante dentro de casa. Diante dele, o fiel deve repetir seu pedido todos os dias. O boneco pode até ser usado para afastar alguém, mas espetar agulhas não faz ninguém sentir dor. A lenda foi disseminada pelo cinema e por quem não conhece a religião.” 

Marco Antonio Zanfra

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