Vira a seis, acaba a doze

A ideia, se não me engano, partiu do humorista Tutty Vasques há algum tempo, mas eu acho que todos devemos assinar embaixo: por que a duração de uma partida de futebol não pode ser condicionada ao placar – como no vôlei e no tênis, por exemplo – e não ao tempo de disputa?

Por que em vez de dois tempos de 45 minutos não estabelecemos que um jogo só termina quando determinado resultado for alcançado? Zero a zero, nem pensar! As duas equipes em campo deveriam continuar jogando até que o resultado fosse atingido, nem que para isso tivessem de jogar durante três dias.

Na minha infância e pré-adolescência, as partidas de futebol, as peladas – que eram peladas antes de a gente começar a pensar em outros tipos de peladas – tinham invariavelmente de ‘virar’ (trocar de campo) assim que determinado time atingisse seis gols, e terminar quando o décimo-segundo tento fosse marcado. Não foram poucos os casos de virar a 12 e acabar a 24, mas isso excepcionalmente, quando os jogos não tinham goleiro e só valia gol de dentro da área.

O que se via eram embates que terminavam em 12 a 11, num dramático festival de gols que alegrava a minúscula plateia – normalmente, formada por quem estava esperando a vez de jogar – e reafirmavam a beleza do futebol ofensivo, em detrimento do futebol-ferrolho, onde o fundamental não é marcar, mas não sofrer gols.

Tem alguma graça ficar 90 minutos vendo 22 homens distribuindo caneladas, tocando a bola de lado (ou para trás) até encontrar (ou não encontrar) um furinho, uma réstia de luz que seja, na parede adversária? Não seria melhor que todo mundo saísse atacando e que vencesse quem atacasse mais? E que times que jogassem com a alegria da molecada não fossem acusados de ‘desrespeito ao adversário’ simplesmente por devolverem ao futebol a arte que ele merece.

Pelo que se vê em alguns jogos por aí, algumas equipes levariam três dias não para fazer seis, mas apenas três gols; outros levariam uma semana. Times com quatro no meio de campo e cinco na defesa, além do goleiro, melhor nem entrar em campo, porque a partida terminaria não por vitória, mas por abandono da torcida ou desistência por cansaço!  

Com a ideia de levar as partidas pelo resultado, o futebol-arte teria de volta a arte do futebol. Driblar, meter lençol, fazer tabelinhas rápidas, tocar no meio das canetas e dar de lambreta deixariam de ser ‘desrespeito ao adversário’ para tornar-se novamente parte do espetáculo. Todos nós, e principalmente o futebol-arte, só teríamos a ganhar.

Marco Antonio Zanfra

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