Vai discutir com esse povo

De passagem, ouço um “Pelé non ekziste”, numa imitação tosca do folclórico Padre Quevedo; em seguida, em bom português, “Pelé não existe”. Fosse religião ou política, passaria direto, mas o assunto me interessou. Parei, eu e essa minha mania de me meter na conversa dos outros, a tempo de ouvir o autor da frase, um rapazote de 15, 16 anos, e sua tentativa de justificar o argumento. Diz para seus colegas de condomínio, todos da mesma idade que ele, que já viu o filme do Pelé, assistiu alguns documentários, leu alguma coisa no Google e tirou suas conclusões: o sujeito que interpreta Pelé na vida real é um ator e tanto – não foi ele que trabalhou uma vez com o Stallone?
– Como assim vida real? O cidadão Edson Arantes do Nascimento, vulgo Pelé, existe em carne e osso. E os documentários, embora antigos, são fiéis ao que ele fez nos gramados – tento contra-atacar.
– Nos dias de hoje, com ajuda da computação gráfica, dá pra fazer e refazer todos aqueles lances, dribles, aquelas sequências de imagens, atribuídos ao Pelé – pontifica meu amiguinho sabichão.

Vou pelo outro lado. Digo que, pelo adiantado da idade, já vi Pelé jogar no Pacaembu, além de outros tantos craques do passado, como Garricha, Ademir da Guia, Tostão, Rivelino, Zico. Não fui muito convincente, os demais integrantes da roda me ignoram e, aparentemente, concordam com o que diz meu “opositor”. “Também acho esse tal de Pelé a maior cascata”, diz um outro. Me olham atravessado, como que a indagar “o que este velhote babão, meio gagá, entende de futebol?” Como acreditar num cara que deve sofrer de Alzheimer, possivelmente usa fraldas geriátricas, nunca jogou Fifa na vida ou escalou um time no Cartola? 
 
– E o Maradona, vocês já viram em ação? Tento desviar o assunto para um plano cronológico mais recente, afinal é de imaginar que, pelo menos alguns deles, saibam alguma coisa sobre o grande craque argentino. Acho que dividi o grupo. Alguns já ouviram falar de Maradona, sim – mas o Messi é melhor – outros acham que ele também é invenção dos argentinos, “todos milongueiros”.
– Ah, esse também é outra enganação. O ator que o interpreta não é aquele baixinho que participou de um seriado antigo, de que meu pai fala sempre, acho que o nome é “Ilha da Fantasia”? – afirma alguém no meio da roda.

Não é possível, estão me tirando, como dizem hoje. Mas antes de desistir desse debate inócuo – rebato:
– Claro que não, não estamos falando do Tattoo (Hervé Villechaize), companheiro de Ricardo Montalban no açucarado seriado dos anos 80. O maior ídolo do futebol da Argentina (os mais antigos ainda dirão, depois do Di Stefano) morreu dia desses, quase um deus por lá, tem até uma igreja em sua homenagem. Aliás, ficou conhecido também como “La Mano de Dios”, por ter marcado um gol com a mão, no embate entre Inglaterra e Argentina, pela Copa de 1986. Dou até uma informaçãozinha básica de lambuja, ao lembrar que a eliminação dos ingleses naquela ocasião teria sido uma vingança dos deuses do futebol. Quatro anos antes, o fortíssimo e experiente exército britânico aniquilou um bando de jovens argentinos imberbes e despreparados na infeliz “Guerra das Malvinas”.

Não, não viram Maradona, em 1986, evidentemente, todos dali nem tinham nascido à época. Tampouco ouviram falar de “guerra das Maldivas”, como ressaltou um deles. Sequer sabem quem foi Zico ou Ronaldinho Gaúcho, só viram Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Mbape, o que para eles, é mais do que suficiente. Oquei, penso comigo mesmo, estou sendo protagonista de um choque de gerações, e bota geração nisso. Estou com mais de 50 anos de vantagem (eu disse vantagem?) sobre esse povo. Cultivo com muito orgulho meus ídolos de minha adolescência e juventude, no futebol, na literatura, na música, mas deve ser endereçado a eles o verso de Belchior “o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Pode-se dizer que o passado para eles, muitas vezes, é questão de semanas, mal chega a um mês; a novidade de hoje já superou a de ontem e, eles mal podem esperar pela de amanhã. É tudo tão instantâneo e líquido, como diz Zygmunt Bauman, que chega a ser assustador. Me afasto da roda, de fininho, com a sensação de ter caído em outro universo, outra dimensão, pior ainda de não ter contribuído em nada para o debate. Funciona mais ou menos assim: acredita-se no Google, no Instagram, no Facebook e demais redes sociais, menos em você, só um velho ultrapassado, que independentemente de sua formação, é incapaz de entender certas dinâmicas da atualidade. De um mundo que se diz moderno, mas que infelizmente, muitas vezes corre atrás do próprio rabo.

Manoel Dorneles