Uma dor quase crônica

O velho jornalista se espreguiça, agora com mais dificuldade, no banco da sacada de seu apartamento. Pela vidraça, espia o mundo lá fora, quer dizer, o pouco que dá pra ver desse seu mundinho atual: as piscinas, agora vazias por conta da pandemia, pedaços do jardim, as varandas dos prédios em frente.

Era apaixonado, mas agora cansou dos jornais impressos. Hoje lê as notícias do dia nos sites do Globo, Terra, UOL. Claro, discorda de quase tudo. Visita os portais alternativos, mas ainda assim não fica satisfeito. Tem um olhar cada vez mais crítico, muito mais do que quando trabalhava nas redações.

Se detém mais na página de política e se diverte em dar pitacos nas matérias. “Bem que o repórter poderia ter perguntado isso, ou aquilo, deveria ter sido mais incisivo nessa questão”. Virou uma máquina de produzir pautas, evidentemente, não sabe onde ou como aproveitá-las. No final, se indaga desacorçoado: para que tudo isso? Sente saudade das grandes reportagens, quatro, cinco páginas, daquelas em que o repórter ia fundo, se enfiava em tudo quanto era canto para descobrir a verdade. Ele, pessoalmente, nunca teve a oportunidade de fazer uma dessas. No máximo colaborou com uma ou outra entrevista.
Lembra de quando entrou pela primeira vez numa redação. Tinha o sonho de cobrir uma guerra, talvez a do Iraque, a primeira, do Bush pai, a segunda, do Bush filho, ou a terceira, sabe-se lá, aqueles sujeitos estão sempre no campo de batalha. Passou. Ele até ri quando lembra que certo dia, já fora da chamada grande imprensa, enquanto o pau comia solto lá na região da antiga Mesopotâmia, ele escrevia um “texto brilhante” sobre um edital qualquer para o Jornal dos Concursos.

Houve um tempo em que quis trabalhar na cobertura esportiva. Não essa do dia a dia do futebol, mas esporte olímpico, variado, cobrir mesmo uma Olimpíada. Também não conseguiu. O mais perto que chegou nessa área, foi quando o escalaram para receber a seleção masculina de vôlei, que acabara de ganhar um mundial no Japão.

Também cresceu os olhos para o setor de turismo, sempre gostou de viajar, conhecer outras regiões, novos povos, países. Hoje não sabe se não logrou seu intento por falta de empenho ou de oportunidade mesmo.

Aprendeu muita coisa em suas andanças pelas redações dos jornalões de São Paulo – Folha, Jornal da Tarde e até do Diário da Noite. O que era ético e o que passava bem longe disso. Imaginem só, no diário do Chateaubriand, aquele mesmo que disse um dia a seus repórteres “pra que aumento se vocês têm a carteirinha do jornal”. Lá viu editor sumir com matérias promissoras nas gavetas da noite para o dia ou jornalista criar uma pauta sobre um assassinato, a partir do sangue de um gato atirado contra a parede. E pior: observou um editor já em final de carreira cobrar centavos de velhinhas desesperadas pela nota sobre o filho desaparecido, o que sempre fora um serviço gratuito do jornal.
Fora dos jornalões, perambulou pela imprensa de bairro, revistas customizadas, assessorias de imprensa. Foi até diretor do sindicato da categoria, mas não se acostumou com a ideia de ficar longe das redações por uma série de razões. Nessa condição, no jornal de bairro, onde trabalhava, era tido como um pária pelos patrões; no sindicato, era só um representante das pequenas redações, sem cor partidária, sem nada. Chegou uma hora em que teve de abrir mão da imunidade para retornar à ativa.

De volta ao trabalho miúdo, se assim podemos dizer, deu sorte. Percorreu o mundo, como se na editoria de turismo estivesse. Além de inúmeras viagens Brasil a fora, esteve em nada menos que 25 países, alguns deles mais de uma vez. Eram viagens de trabalho, às vezes só a convite, mas ele aproveitou bem as oportunidades. Fez inúmeras matérias nas horas vagas e, na maior parte do tempo, curtiu a viagem, os bons momentos. Realizado na profissão? Talvez sim, talvez não, difícil dizer. Tudo depende do ângulo escolhido para análise.
Após o mestrado em comunicação, cogitou de dar aulas, passar um pouco de sua experiência adiante, mas perdeu o pique, o time. Ainda assim, contribuiu para a formação de vários repórteres ao longo da carreira e até corrigiu assessores de imprensa, cujos textos enviados à redação eram incompreensíveis.

Refestelado no banco da varanda, a curtir sua aposentadoria, ele estala os ossos se pergunta se valeu a pena. Valeu algumas vezes, outras doeu, ainda dói, uma dor real, que pode até virar crônica. Está ciente de que a grande reportagem, que ele nunca fez, não tem mais espaço na imprensa e o que é pior, nem leitores. Mas um livro, um dia, quem sabe…

Manoel Dorneles

3 comentários

  1. Apesar de seu tom meio desdenhoso, acho que o Jornal dos Concursos foi importante em nossa vida, assim como fomos importantes na história dele.

    • Manoel Dorneles Rodrigues
      Manoel Dorneles Rodrigues

      Tambem acredito que todas as etapas são importantes em nossa caminhada. Só fiz um contraponto entre a cobertura de uma guerra e o texto simples de um edital qualquer. Imagine que, após o JC, o sujeito foi trabalhar na Burson-Masteller, e produzir releases para o McDonald’s e Dow Quimica

  2. Manoel Dorneles Rodrigues
    Manoel Dorneles Rodrigues

    Não fui desdenhoso, só fiz um contraponto entre a cobertura de uma guerra e o texto simples paracum edital qualquer. Também acredito que todas as etapas são importantes em nossas caminhadas, inclusive, a do Jornal dos Concursos

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