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Crônicas

Um bebê pelos cantos

Tinha esquecido de como fica carregado de expectativa e urgência o clima de uma casa com a chegada do bebê. Principalmente se o “bebê” é um filhote de labrador com pouco mais de dois meses de vida, olhos cinzentos, cor de cobertura de suspiro levemente gratinada e capacidade de morder quatro ou cinco objetos ao mesmo tempo, entre eles quase sempre incluído um pé humano.
Falo em clima de expectativa e urgência porque tudo é imprevisível e “pra já” quando o mais novo morador da casa resolve erguer-se sobre as quatro patinhas ainda inseguras: alguma coisa vai acontecer, e quase sempre não é uma coisa boa. Se a intenção dele é fazer xixi, por exemplo, e a porta estiver fechada, nem adianta correr: uma verdadeira lagoa de um líquido “amarelo citrino”, como definem os laboratórios de análises clínicas, irá ocupar o cinza-claro do piso, até ser absorvida por uma ou duas folhas do jornal de ontem. Aliás, como é que cabe tanto xixi dentro de um barrigudinho daquele tamanho?
Arrastar toalhas e toalhinhas, morder as arestas das cadeiras, chacoalhar tapetes, entrar em vias de fato com o controle remoto, enredar-se num fio solto que, se puxado, pode desmontar o sofá da sala, experimentar o sabor de sandálias e tênis desavisados… Não, não dá para fazer um rol de estragos possíveis: ele sempre vai arranjar algo para surpreender-nos.
Não vi “Marley & Eu”, mas tenho informações suficientes – por relatos de felizes ex-proprietários e por quem viu o filme – sobre o perfil hiperativo do labrador. O que eu ainda não sabia fiquei sabendo agora, por experiência própria: ele parece uma enxurrada, e não apenas quando faz xixi – uma enxurrada como definição de uma massa de água que vai avançando e levando de arrasto tudo o que está pela frente. E com a rapidez suficiente para correr atrás de um objeto lançado não sem antes morder a mão que o lançou.
Nosso bebê não é no entanto hiperativo. É um cão “equilibrado”, nas palavras do veterinário que o deixou constrangido ao medir-lhe a temperatura com um termômetro retal. E eu fico imaginando que espécie de catástrofe ele consideraria “um cão hiperativo”. Mas, apesar de “equilibrado”, ele sofre de transtorno compulsivo: morde as patas a ponto de arrancar sangue para domar a própria ansiedade, e o único jeito de evitar isso é a eterna vigilância. Tentei ensiná-lo a jogar paciência no computador – um paliativo eficaz contra minha própria ansiedade – mas ele não faz nada além de morder o mouse.
Outra coisa que ele faz compulsivamente é comer. Em nossa última visita ao veterinário, minha santa mulher espantou-se com o fato de ele ter engordado dois quilos numa semana. Mas eu fiz as contas e vi que não era bem assim: ele passou de quatro a seis quilos em uma semana e, portanto, não engordou simplesmente dois quilos – engordou cinquenta por cento de seu peso! É mais ou menos a mesma coisa que eu passar de meus tradicionais sessenta a noventa quilos dentro dos mesmos sete dias!
Juro que pensei em adotar a ração dele como alimento básico em meu cardápio, para compensar a magreza. Mas obviamente comendo com mais moderação: não me agradaria ter noventa quilos, mesmo que não atingisse a marca com a mesma rapidez.    
A propósito: Lancelot é o nome do bebê. Não tenho certeza, mas acho que lancelot deve significar “não vai sobrar pedra sobre pedra” em alguma língua arcaica.

Marco Antonio Zanfra

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