Todas as vidas importam

Há anos, procuro a alma dos mais amados, sumidos no mundo pós-vida: vovó Cora, papai Rúbio, tios, primos, amigos.

Sinto a aura, mas não consigo tocá-los. 

Histórias antigas passam por mim, como a luz do sol. Dão calor, a cada dia.

Vovó adorava açúcar, fazia maravilhas, dando água na boca a cada garfada. Contava muitas histórias, plantava frutas. Iluminava nossas vidas.

Papai, apoio para todos, distribuía amor, carinho… surras. Trabalhava com afinco. Criou filhos vitoriosos.

Tios? Todos importam, mas um não sai nunca da minha vida. Usava batina no trabalho, calça normal, quando íamos para o sítio. Tinha amor puro, todo dia, toda hora. Nunca faltava! Batizou, casou irmãos, sobrinhos, amigos. Sua família? Todos nós!

Dos primos, a dor maior: Marquinho, filho mais novo dos tios Otávio-Ruth. Foi para outro plano ainda novo. Não avisou, não falou nada. Só foi. Nós ficamos aqui, chorando sua falta.

Muitos amigos partiram. Uma vivia arrumando motivo para brigar. Fingia não dar valor para nós, mas corria para auxiliar todo mundo. Sinto falta, pois contava com sua ajuda, nos dias bons, nos dias ruins…

Nos dias atuais, a Covid-19 tira vidas, causa dor. O futuro acabou para 100 mil no Brasil, um milhão, no mundo. As lágrimas inundam as casas. Vamos distribuir amor, a cada minuto? Por favor?

OBS: Texto desafio todo escrito sem o uso de palavras que contenham a letra E, como fez em 1969, o escritor francês Georges Perec no livro “O Sumiço”.

Célia Bretas Tahan

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