Sobre vírus e vermes

Tempos estranhos esses que estamos vivendo. Confinados. Isolados.

Ameaçados por um ser de tamanho desprezível, mas de violência extrema.

Um vírus. Impiedoso. Coroado como um rei tirano, despótico, nada esclarecido. Sorrateiro a ponto de nos fazer gelar a um simples espirro, uma dorzinha de cabeça.

A paranoia mostra suas presas.

O amigo virou o pestilento. Dois metros de distância. Não se aproxime.

Não se atreva. Ilhas. Não é zona de conforto, mas de confronto.

O amigo não é amigo. Não hoje. Nem amanhã. Sabe-se lá quando. Poucos sabem.

Talvez ninguém.

Desculpem, amigos. Don’t stand so close to me, diz o cantor.

A rua nunca foi tão distante. O portão da casa virou fronteira. A calçada, terra de ninguém. Não ultrapasse ou será expulso. Uma guerra sem quartel.

O reizinho coroado deve rir-se. Tem lá seu sadismo. Nos vê, nos invade, não pergunta, não pede licença. Ocupa. Nos abusa. Não está só.

Além do vírus há os vermes. Não os vermes a quem um dia serviremos de pasto.

Há vermes na forma humana.

Humana?

Cabeças, troncos e membros a pensar em suas moedas, no vil metal, nos trinta dinheiros da traição. Na defesa do lucro, messias vira judas.

Cuidado verme.

Estão a tecer sua corda. Aquela que vai envolver seu pescoço num abraço apertado, inescapável. Sufocante.

Um dia o reizinho coroado será destronado. 

Até lá, desobediência.

 Ignorar messias, falsos profetas, bezerros de ouro, a besta. 

Cada qual em sua ilha.

Reserve, preserve seu amor para o dia da festa.

Tomara que não chova.

Carlos de Oliveira