Sem açúcar e sem afeto

Ninguém duvida de que Chico Buarque é, desde os anos 1960, o mais sensível intérprete da alma feminina entre todos os poetas e compositores da música brasileira. Mas, afinal, de que mulher ele tanto fala? Daquela oprimida e submissa de 50, 60 anos atrás ou a deste século, dita emancipada e empoderada? No “universo chicobuarqueano” transitam mulheres de todo tipo, algumas bem reprimidas, é verdade, mas outras inteiramente donas de seus próprios corpos e narizes. O curioso é que as feministas do século 21 resolveram cobrar o autor exatamente por uma de suas obras primas: “Com açúcar e com afeto”.

Composta em 1967, por encomenda de ninguém menos do que a emancipada Nara Leão, a canção fala de uma mulher que, não obstante os porres, vagabundagem e safadezas do marido, o espera em casa com o prato quente e o seu doce predileto na mesa. Na casa dos 77 anos, mas ainda dono de sua aflorada sensibilidade, Chico concorda com as feministas, reconhece a inexistência atual dessa mulher e por isso promete que não vai mais cantar a música em público.

Ora, seu Chico, larga mão disso. Não vamos radicalizar. Deixar de interpretar “Com açúcar e com afeto” seria um castigo desnecessário a todos os aficionados pela música brasileira. O que se pode exigir de nós, brasileiros, inclusive das feministas, é justamente o discernimento para entender o papel e a evolução feminina desde os anos 1960 até os dias de hoje. Evidentemente, que hoje em dia pode ganhar um sonoro pé nas nádegas o sujeito que sair de casa para trabalhar, mas que, em vez de se dirigir para a oficina, para num “bar em cada esquina” ou “fica olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol”. Mas qual o quê?

Ao mesmo tempo em que cantava a fêmea submissa, Chico mostrava os perfis de mulheres incríveis e determinadas em sua extensa obra. Que ouvido macho nunca foi aliciado e seduzido pela voz de Gal Costa, a interpretar o verso “se acaso me quiseres sou dessas mulheres que só dizem sim…”, em “Folhetim”? Em troca, ela pedia apenas “uma pedra falsa, um Sonho de Valsa ou um corte de cetim”. A sedução prossegue nos versos “direi meias verdades, sempre a meia luz” e “te farei vaidoso e supor que és o maior e que me possuis”. Só que essa mulher tem prazo de validade, não está cem por cento do tempo disponível àquele homem, de formas que, “na manhã seguinte, não conte até vinte, te afaste de mim, pois já não vales nada és página virada, descartada de meu folhetim”.  

Em “Olho nos olhos”, Chico canta a mulher abandonada pelo homem, desiludida, mas resoluta, que mesmo humilhada não verga, dá a volta por cima. “Olhos nos olhos, quero ver o que você faz ao sentir que sem você eu passo bem demais…” ou para sepultar de vez o ego dele “E tantas águas rolaram, quantos homens me amaram bem mais e melhor que você”. Entre tantas outras, quem conhece uma mulher mais determinada e resoluta do que a Rita? Ela vai embora e, não satisfeita, leva junto um caminhão de lembranças e recordações. Levou embora o sorriso dele, “no sorriso dela meu assunto”, “levou junto com ela o que me é de direito…” “e além de tudo, me deixou mudo o violão”.

Por isso, antes de qualquer crítica ao “antifeminismo” de Chico, é preciso ver como ele distribui suas mulheres no correr da história. Não por acaso, ele retrata com muito mais fidelidade o machismo em “Mulheres de Atenas”, sempre submissas e à espera de seus maridos “orgulho e raça de Atenas”. “Quando amadas, se perfumam, se banham com leite se arrumam… Quando fustigadas não choram, se ajoelham, pedem, imploram mais duras penas…” É apenas um breve relato da vida servil e dedicada das pequenas Helenas, retrato de uma época, numa região onde ao homem era concedido o privilégio de guerrear, filosofar, amar “outras falenas”, enquanto a mulher sequer tinha o direito de pensar…

Manoel Dorneles

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