Renomeando coisas velhas

Ruy Castro fez uma observação interessante num texto da página dois da Folha dias atrás: que as coisas antigas têm de mudar de nome para diferenciá-las das coisas que vêm tomar seu lugar – ou, ao menos, conviver com elas – e não o contrário.

Ele usou como gancho o fato de um amigo ter usado o termo “impresso” para citar que lera no jornal de papel, desses que a gente ainda pode comprar nas bancas, determinado artigo. Nesse caso, ele usou o termo para dizer que sua fonte de leitura não fora o jornal digital, ou o texto on-line, formatos de acesso mais comum entre os leitores, hoje em dia.

A partir daí, Ruy Castro cita os velhos que passam a ser tratados com diferenciais, para identificá-los diante das novidades: o Rei do Baião Luiz Gonzaga passou a ser tratado como “Gonzagão” depois que o filho Luiz Gonzaga Jr. entrou na carreira artística como “Gonzaguinha”; o antigo LP musical é conhecido hoje como “vinil” para não ser confundido com o CD.

O texto acrescenta também que as nomenclaturas históricas que a gente conhece hoje não eram conhecidas na época em que a história estava acontecendo. Por exemplo: ninguém que vivia na Idade Média sabia estar vivendo na Idade Média; ninguém que lutou na Primeira Guerra Mundial sabia estar vivendo a primeira guerra, que só passou a ser primeira quando foi deflagrada a segunda.

Eu acrescento: a menos que fosse vidente, ninguém que viveu antes de Cristo podia escrever no cabeçalho de suas cartas “abril de 2021 A.C.”, porque Cristo ainda não havia nascido, e o marco temporal, portanto, não existia; o Velho Testamento só passou a ser Velho Testamento depois que o Novo Testamento foi para as prateleiras das livrarias.

Dito isso tudo, minha preocupação é para quando nós passarmos a fazer parte da História: esta pandemia será conhecida como A Grande Pandemia? Ou: supondo-se que ela seja controlada e que uma outra peste se nos imponha, ela será conhecida como a Primeira Grande Pandemia? Ou: supondo-se que ela não seja controlada e prossiga por anos a fio, tudo será registrado pela História como só uma Grande Pandemia?

Ou, finalmente: alguém vai sobreviver para registrar tudo isso na História?

Marco Antonio Zanfra

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