Quando se é jovem…

Queria ter 18 anos, com a experiência dos meus 66. Naquela época, não sabia o quanto custava sustentar filhos, casa, carro. E, com a energia e o combustível cada vez mais caros, tudo o que queria hoje era ter 18 anos e um pai, para me dar tudo o que eu preciso. Nem me preocuparia se o presidente é genocida corrupto, se há vacinas para todos, se a Covid-19 pode causar mortes, inclusive de gente jovem e saudável.

Iria a festas, viajaria para a praia, aglomeraria com os amigos e faria uma porção de coisas completamente irresponsáveis, inclusive construir e soltar balões. Nenhuma delas é recomendável, neste momento de pandemia, e soltar balões, NUNCA! Ato criminoso, perigoso e totalmente irresponsável, que causa danos à natureza e às pessoas. Melhor bexigas de festa. Quando o Parque do Juquery pegou fogo, por causa de um balão, muitas pessoas chamaram os balonistas de bandidos.

Houve um tempo em que eu costumava frequentar a Avenida Dr. Ricardo Jafet, pouco antes da Rodovia dos Imigrantes, em São Paulo, lugar bem conhecido dos balonistas paulistanos. Era lá que nos reuníamos, tarde da noite, para encher o céu com as luzes dos balões. Corríamos o risco de sermos presos. Sim. E, daí? Quer dizer que já fui “bandida”?

Confesso que nunca pensei nos danos que poderia causar. Só na bronca que levaria, caso meu pai descobrisse por onde eu andava. Um mês trancada no quarto, no mínimo!

Tudo não passava de diversão. Acreditávamos que era saudável. Não líamos jornais, pouco assistíamos televisão e, sem saberem o que fazíamos, nossos pais não podiam nos orientar. Bem diferente de hoje em dia, quando os jovens de 18 anos vivem na Internet e sabem de tudo um pouco. Ou será que preferem ignorar o quanto suas ações são prejudiciais às pessoas e ao mundo?

É possível que ignorem. Se há adultos que acreditam nas fake news que veem no WhatsApp, por que os jovens seriam diferentes? Às vezes, ainda me surpreendo com a ignorância de certos adultos sobre coisas simples, como a importância de continuar usando máscara, mantendo o distanciamento social e higienizando as mãos, mesmo vacinados contra a Covid-19.

Se eu tivesse 18 anos, com o conhecimento dos meus 66, faria diferente? Não sei. Só uma coisa tenho certeza: jamais seria jornalista! Continuaria a trabalhar na Nossa Caixa, como concursada, veria meus filhos crescerem, teria fins de semana e feriados livres e tempo para aproveitar a vida. E uma aposentadoria bem superior à paga pelo INSS.

Foram 43 anos como jornalista e mãe solo, com dois ou três empregos ao mesmo tempo, tentando ganhar o suficiente para sustentar a casa e meus dois filhos. Escrever era talento nato na família. Pelo menos, no lado feminino da família: vó escritora, mãe professora e irmã jornalista.

Sim, sempre gostei de números, de matemática. Mas esta era a área do meu pai, bancário, e do meu irmão, que cursava engenharia. Acho que havia um pouco de machismo e de patriarcado nisso. Sei lá. Faz mais de 50 anos. Outros tempos!

Na hora de escolher, joguei fora o emprego concursado, para ser jornalista, achando que poderia mudar o mundo. Ledo engano! Tudo o que consegui foi mudar os rumos da minha vida e passar necessidade, com meus filhos, cada vez que perdia o (s) emprego (s).

Um amigo, jornalista e escritor, perguntou, recentemente, se escrever me realiza. Não mais. Hoje, escrever se tornou quase um suplício. Antes, já tinha o texto pronto, na cabeça, antes de começar uma matéria. E tudo se encaixava, perfeitamente. Atualmente, escrevo de forma desconexa, sem eira nem beira.

Se teria tanta capacidade, em outra profissão? Com certeza! Hoje, servidora pública concursada, atuo na área de Tecnologia da Informação. Muitas vezes, até eu me surpreendo com a capacidade que tenho para aprender tudo o que me ensinam e para usar a lógica, na hora de solucionar muitos problemas.

Então, voltando aos balões, como esperar que os jovens saibam os danos que podem causar, se não forem orientados em casa, na escola e até naqueles jogos virtuais, que adoram?

Da mesma forma, como esperar que um jovem de 18 anos decida qual a profissão que deseja seguir, pelo resto da vida? Sem chance! Meu filho queria ser administrador de empresas. “Você tem uma empresa para administrar ou vai trabalhar para os outros”, perguntei. “Por que não faz algo ligado à área de informática? É a única que não cairá em desuso.” Ainda bem que me ouviu! Ele fez e, hoje, trabalha na Europa, como consultor de integração IIB. Não sei se gosta do que faz e tenho até medo de perguntar. Só sei que, pelo menos, ganha bastante e conseguiu sair do Brasil, como sempre quis.

Já minha filha, não me ouviu: cursou Propaganda e Marketing e nunca atuou na área. Só seguiu meu conselho quando ficou em dúvida entre assumir uma vaga no serviço público ou continuar na iniciativa privada. “Quer passar por todo o sufoco que passei?” Tornou-se servidora pública na área da Saúde e hoje, como dirigente sindical, sofre com os problemas de todos os servidores e por não conseguir resolvê-los. Detalhe: também fui contra ela se tornar sindicalista. Mas…

Se eu tivesse 18 anos, com a experiência dos meus 66, faria tudo diferente. Pena que os jovens de 18 anos de hoje, exatamente como os do meu tempo, dão pouca ou nenhuma importância à experiência dos mais velhos…

Célia Bretas Tahan

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