Preso na gaiola

O cartaz do VI Salão Internacional do Humor de Piracicaba, do longínquo ano de 1979, trazia um desenho mostrando um pássaro dentro de uma gaiola, com a porta aberta, olhando desconfiado para o lado de fora e avaliando o risco de encarar uma oferta de liberdade que podia ser ilusória.

A arte era de autoria do falecido cartunista Glauco e simbolizava a anistia, que havia sido decretada em agosto daquele ano e que ainda pegava muitos, como o pássaro, desconfiados.

Pois eu me sinto hoje exatamente como aquele passarinho: estou enfiando temerosamente a cabeça pela porta – que eu mesmo abri – e me perguntando se é chegado o momento de sair e colocar em dia todos aqueles compromissos inadiáveis que adiei neste quase um ano de isolamento. Sei que ainda não estamos seguros, sei que há um recrudescimento de contágios, mas acho que cheguei a um momento em que preciso exumar a vida que enterrei lá fora e voltar a me sentir respirando.

Minha casa é um antro de risco: além deste idoso que vos fala, há os sogros vinte anos mais velhos e a esposa que, apesar de mais nova, é hipertensa – ou seja, tem aquilo que os noticiários costumavam descrever como comorbidade. Por isso, isolamento tem sido nosso nome do meio. Até às filhas e aos netos as visitas foram restritas. Supermercado e farmácia, só por delivery. E reservei as terças-feiras, às 5h50, para fazer as compras de frutas e verduras num sacolão quase deserto.

Nesse ponto, a gente vai levando, e poderia continuar assim. Mas algumas coisas não podem mais ser adiadas.

Por exemplo, um processo de implante dentário começado em fevereiro. Até três ou quatro meses depois de iniciado o tratamento, um provisório cumpria satisfatoriamente seu papel mastigador, mas ele se foi e um sombrio vão de sete milímetros ficou no lugar onde antes havia um canino. Além disso, um dos incisivos centrais sofreu uma ligeira lascada e isso é sinal de que mais um pedaço pode me abandonar. O uso de máscara impede que o público externo conheça essas falhas, mas o que os olhos não veem não é sinal de boa saúde bucal.

Como confiar, entretanto, num consultório dentário sem janelas, onde a circulação do ar não existe e um lote de micro-organismos malignos pode ficar rodopiando sabe-se lá por quanto tempo, à espera de uma inadvertida boca aberta?

Outro compromisso inadiável foi a consulta anual com o urologista que me livrou da próstata, contemplada com um tumor. Em agosto, eu deveria ter feito exame de PSA, para saber se o câncer efetivamente me liberou, mas só agora criei coragem de ir ao laboratório de análises a três quilômetros de casa. A consulta médica tem a seu favor o fato de que pode ser feita sem a retirada da máscara, mas o consultório fica no Centro, no terceiro andar, num centro médico bastante frequentado, e a sala de espera costuma ter pelo menos duas ou três pessoas, além da recepcionista. Isso configura aglomeração?

Tenho mais pendências – como o retorno à dermatologista, com um exame de detecção de alergias feito no início de março, e a ida a um ortopedista, para descobrir se essa dor no braço esquerdo é realmente uma tendinite de bíceps – mas, como o passarinho do cartaz, vou aos poucos, muito lentamente. Acho que segurança para sair só vamos ter depois da vacina. E quem já aguentou esse tempo todo como eremita, por que não mais alguns meses?

Em tempo: o exame de PSA acusou 0,07; o médico disse que enquanto não sair do 0,0 está tudo bem!

Marco Antonio Zanfra

Um comentário

  1. Mais importante é a nossa saúde, sem dúvidas. Vá se cuidando aí até chegar as benditas vacinas, o resto é acessório!

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