Pousada no Sul

Quando eu era pequeno, morando em Sampa, meus avós sempre lembravam, com terror, da Gripe Espanhola, que infernizou o mundo. Foram 3 anos de pandemia – de janeiro de 1918 a dezembro de 1920. Pior que agora, não havia sequer perspectiva de vacina. Os velhos contavam que, além dos bondes andarem pelo centro da cidade cheios de caixões de defunto, quem circulava pelas ruas dos bairros se deparava – ao vivo – com muitos corpos nas portas das casas.

Quando essa nova peste nos atingiu, as histórias de um século atrás explodiram na minha cabeça. A pousada que temos no interior de Nova Petrópolis/RS foi imediatamente fechada. Era março do ano passado. E, então, ficamos reclusos.

Para nós – Susana e eu – a reclusão física pouco abalou. Vivemos numa extensa área verde e, fechada ou não, isto aqui oferece sempre o que fazer.

Mas a mental, esta sim, foi brava. Cadê os amigos? Cadê os bailes da região? As festas folclóricas. Mas, o mais dolorido, cadê filhos e netos?

Um alívio foi que minha filha podia trabalhar on-line e ficou, com o marido e meu neto de 9 anos, internada aqui por um mês e meio. Eles vieram de carro, direto de São Paulo (mil quilômetros de distância), fazendo xixi na beira da estrada, para não ter risco de contaminação em postos e hotéis.

Mas meu filho e os filhos dele (quase mais velhos que o vô, pois têm 19 e 22 anos) não vi até agora. Com as filhas e a neta da Susana idem. E ela morre da saudade.

Mas o tempo foi passando e, aqui no Sul e especialmente na nossa cidade, o vírus tinha atacado sem a fúria que em Sampa e outras capitais.

Depois de quatro meses e meio, reabrimos a pousada, com várias mudanças no atendimento, para proteger tanto os hóspedes quanto a nós mesmos e nossos funcionários.

Claro que está dando muito mais trabalho. Café da manhã e refeições, por exemplo, são servidos nos chalés, que ficam um tanto longe da sede, com chuva ou sol.

Mas, surpresa: a pousada teve um movimento excepcional, maior que em tempos de saúde plena. E os chalés, que sempre são procurados por casais românticos, nunca tiveram tantas crianças. Explicação lógica: tanto tempo enfurnadas em apartamentos, tiveram um local para respirar.

As tristezas, entretanto, permanecem, cada vez mais intensas. É o atraso genocida das vacinas, o pessoal ignorante e de saco cheio andando sem máscara e fazendo aglomerações, nós sendo achincalhados por manter todo o rigor necessário e por aí afora.

Torcemos só que não dure tanto quanto a Gripe Espanhola. Senão a gente morre, não de Covid, mas de indignação.

Luiz Padovani

Um comentário

  1. A foto que ilustra o texto retira qualquer referência deletéria que a quarentena poderia ter trazido!

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