Perseguindo o tempo

Só agora me lembrei que esqueci de fazer um montão de coisas lá atrás, no espaço-tempo chamado passado. Passou, mas, não me sai da cabeça o que eu poderia ter feito, vivido, conquistado, rido ou chorado.

Muita coisa ficou no caminho, reconheço. Talvez tenha faltado atenção, empenho. No fundo do poço, faltou conhecimento do tempo, saber como o Universo e o Multiverso se movem.

Não entendia bem para que lado eles giravam. E talvez não entenda até hoje. Algumas vezes corri atrás. Outras, parei para acertar o passo. Até dei meia volta num período mais cinzento. Acho que andei em descompasso.

Preciso estudar mais a teoria da relatividade de Einstein. Se bem que já inventaram a teoria da gravidade quântica em loop, segundo a qual o espaço e o tempo não existem. Talvez por isso, segundo essa teoria, não vi o tempo passar. Vivi perseguindo o tempo, mas o tempo voa.

Claro que precisamos levar em conta as dificuldades locais e temporais. Quando chove, por exemplo, todo mundo se recolhe em casa. Se esconde da chuva. E se a chuva for um enviado do tempo?

Vez ou outra, ficamos um tempo observando a chuva. Vemos os pingos, transparentes, e concluímos que molham. Pode ser um banho de água fria em nossas expectativas. Com tempo nublado, então, fica mais difícil enxergar o horizonte. E, nesses casos, o tempo passa? Ou será que não passa?

Se ficarmos um dia inteiro olhando para a chuva, sem fazer nada, a noite vai chegar de qualquer jeito. Aí, não dá nem para ver os pingos. Apenas sentir. Sinto a água, mas não sinto o tempo passar. Talvez ele se esconda atrás da chuva, no meio dos pingos da noite e nos surpreenda quando bater o sono. Depois, será dia seguinte que segue.

Começar de novo. Porém se virarmos a página esse tempo será passado. Página virada, para usar um termo autoexplicativo.

Nesse novo, o tempo será criança? Ou seja, será nosso dependente? Vai nos obedecer sem reclamar? Aí, poderemos mandar no tempo? Cuidado com os desejos. Por ser mais jovem, talvez o tempo corra mais rápido e ficará mais cansativo acompanhá-lo ou ver a banda passar.

Não se iluda. Se você deixar o livro ao vento, as páginas vão rolar mais depressa e, por consequência, o tempo será arrastado junto. Quanto tempo é preciso para rever essas páginas?

Não espere muito. As letras podem desaparecer e o tempo escorregar pelas entrelinhas, por entre seus dedos. Sem registros, será preciso reescrever o tempo. E, como eu controlo o passado, posso imaginá-lo diferente. Talvez irreal. Mas, quem saberá a não ser eu mesmo?

Agora, me lembro do que esqueci. Só que do meu jeito, um livro reescrito. Quem quer ler?

Nereu Leme