Para o meio do mato

Fugi da cidade grande. Saí correndo de São Paulo, por causa do vírus. Morava no bairro do Campo Belo, numa caixinha apertada. Deixei um espaçoso apartamento em Moema para ir morar num studio.

Queria uma vida mais simples. O chamado “Back to the basic”. Duas calças, meia dúzia de camisetas, dois tênis. Pouca coisa. Tenho inveja de uma amiga que mora em Portugal e diz que tem apenas uma panela. Desapego total.

No começo da pandemia comecei a fazer um job no Alto da Lapa. Quinze dias depois de iniciarmos o trabalho, todos foram trabalhar em casa, home office.

Começou minha prisão. O trabalho distraía. Porém, a quarentena era violenta.

Então, decidi ir fazer home office no apartamento da praia, Riviera de São Lourenço, Cidade de Bertioga.

Assim, poderíamos caminhar em algum momento do dia, menos movimentado, eu e minha mulher.

O job, freelancer, terminou e a pandemia não passou.

Então, ficamos presos, eu e minha mulher, numa caixa de vidro. Chamo assim porque a sacada do meu apartamento é envidraçada.

Através do vidro ainda vejo algumas árvores que fazem parte da faixa de preservação ambiental atrás do prédio. Mas, quando desço do apartamento é só concreto, até chegar na praia, uns 150 a 200 metros.

Porém, só conseguimos caminhar na faixa de areia bem cedo e nos dias de semana, com menor movimento. Usamos máscaras e parecemos uma dupla de ETs. A maioria não usa máscara e nem respeita o distanciamento social.

Aos fins de semana, quando a praia fica mais povoada, caminhamos por ruas mais desertas.

Duas horas de caminhada e em seguida, voltamos para a caixa de vidro. É ler, assistir filmes e séries.

Estamos tão reclusos que meu aniversário de 73 anos e nosso aniversário de casamento, 50 anos, ocorrido dia 30 de janeiro, passamos sozinhos em casa e comemoramos virtualmente com nossos filhos e netos cada um em sua casa, por respeito ao distanciamento.

Aqui, comemoramos com um espumante. Saúde!

Agora, comprei um terreno no meio do mato, onde devo construir uma casinha e me mudar. (Na foto, vista da sacada da minha futura casa).

Vou para o meio do mato!

Nereu Leme

3 comentários

  1. Cinquenta anos de casado, Nereu! Puxa, parabéns! No meu tempo, só os bem velhinhos cumpriam essa missão!

  2. Parabéns pelo aniversário e pelas bodas de ouro. Só a visão dessa paisagem compensa todos os momentos passados na “caixinha de vidro” da Riviera

  3. Que maravilha! Natureza é liberdade!

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