Pânico na calçada

A princípio, pensei que fosse como a Influenza A (H1N1), de 2009. Em abril daquele ano, matou mais de 100 pessoas no México e, provavelmente, havia 1.500 infectados em todo o mundo, segundo a Wikipedia. Mesmo com a vacina já existindo, desde junho de 2009 (o vírus era um velho conhecido, só que com mutações), um ano depois, atingiu 75 países. A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou pandemia só em 2010, mas, um mês depois, baixou o nível de alerta para pós-pandêmico. 

Naquele tempo, foi mesmo “uma gripezinha”. Logo, as pessoas perderam o hábito de lavar bem as mãos e de usar álcool em gel, sempre que chegavam em casa. Lavar bem as mãos, sempre, meus pais me ensinaram na infância. Era a orientação, também, dos médicos cubanos que trabalharam no Tocantins, de 1990 até 1992, e dos que vieram depois, pelo Mais Médicos (mas esta história conto outro dia). Daí, nunca deixei de lado a “mania” de sempre lavar as mãos, ensinando o mesmo aos meus filhos. Que horror ver, em restaurantes, as pessoas chegarem ou usarem o banheiro para fazer suas necessidades e não lavarem as mãos, antes de se sentar para comer, especialmente aqui, no Tocantins!

Logo no início de março do ano passado, quando o novo coronavírus e a Covid-19 já mostrava que não “era só uma gripezinha”, aproveitei uns dias de folga e um feriado, no meio da semana, e já me isolei em casa. “Seguro morreu de velho”, pensei. O decreto estadual de trabalho remoto só foi publicado oito dias depois. 

Passava o dia todo, ligada nas notícias, com a esperança de ouvir “vai passar logo”… Os gestos de solidariedade e as palmas, no mundo todo, se transformaram num alento! Cheguei até a acreditar que o mundo sairia da pandemia totalmente melhorado, prevalecendo o “todos por um”.

Aos poucos, a esperança diminuiu e o desespero aumentou. Cheguei a entrar em pânico.

Vivemos no Brasil! Um Brasil de milhares de “jestores” pouco afeitos a cuidar da população. Um Brasil, com um “jestor-mor”, psicopata, sociopata e genocida, que gasta R$ 15 milhões em leite condensado e R$ 2,2 milhões em chicletes, cercado de gente igual a ele, e que não quis comprar vacinas. Um Brasil, que não dá a mínima para a Educação, a Cultura, a Ciência e a Saúde. Um Brasil de milhares de corruptos, que só querem enriquecer às custas dos cofres públicos.

O Brasil é, hoje, o paraíso das notícias falsas e das mentiras, ditas, sem pudor, pelas próprias autoridades e disseminadas, maciçamente, pelos que as apoiam.

Checo tudo o que leio e ouço. Nas poucas vezes que saio de casa, levo um borrifador com álcool 70% líquido. Uso em tudo, até nos produtos que pego no supermercado, na hora que faço compras.

Visitar ou encontrar amigos? Nem pensar, mesmo seguindo todos os protocolos da OMS e dos especialistas! Se estiver contaminada, posso infectá-los; se não estiver, posso ser. E não tenho dinheiro para buscar tratamento em São Paulo, no Albert Einstein nem no Sírio-Libanês. Terei de me contentar com os médicos do Tocantins, a maioria bolsonarista e adepta da cloroquina e da Ivermectina.  

A vacina chegou, só que tem fura-filas em maior número que as doses disponíveis. Minha mãe, de 92 anos, que mora em São Paulo, nem sabe quando será imunizada. No Tocantins, as poucas doses que vieram, tirando o marketing inicial das “otoridades”, ninguém sabe quantos nem quem foi vacinado. Os números oficiais de mortos, contaminados e hospitalizados tem discrepâncias inexplicáveis. A imprensa local, dependente de verbas públicas, divulga, sem questionar.

Meu filho, que mora na Europa, precisou adiar o casamento, pela segunda vez, e se sente arrasado. Seria em Jundiaí (SP), num sábado de fevereiro (já cancelado desde setembro do ano passado). E São Paulo, nos fins de semana, decretou fase vermelha. 

Para ajudar, o dono da casa onde moro manda dois pedreiros reformarem a calçada. Entram e saem do quintal, o tempo todo, sem máscaras. Por mais que eu fale para fecharem, deixam o portão escancarado, com o risco de os cachorros fugirem. Depois de três dias, pedindo com educação, acabei dando uns gritos com eles. “Que falta de respeito”, disseram. Minha??????   

“Prende os cachorros”, ordenaram. Isso, mesmo que vocês leram: eles ordenaram!!!! Nem tentem imaginar o que eu disse a ambos, antes de voltar à razão…

“Prender os meus pets, o dia todo??? Nem pensar! Já chega eu estar presa, há quase 11 meses!!!”

É estresse que chama? Sim. Sinto-me total e completamente estressada, sem saber quando eu e todos nós receberemos a vacina, o único alvará de soltura que permitirá a volta a uma vida razoavelmente normal.  

Célia Bretas Tahan

5 comentários

  1. E você fica no banheiro, vendo se as pessoas lavam ou não as mãos?

  2. Engraçadinho!

  3. E o casamento foi cancelado de vez. Pedi ao Nereu para alterar, só que colocou cancelado na frase errada…. 🤣🤣🤣🤣🤣

  4. Por enquanto, para sempre…

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