Demorou um pouco – menos do que eu havia previsto inicialmente – mas o volume de telefones bloqueados na memória de meu celular acaba de ultrapassar o número de contatos que venho armazenando ao longo dos últimos anos.

Se ainda lhes parece pouco, é bom lembrar que tenho acumulado números de telefones de contato desde o início do século – alguns dos integrantes desse grupo inclusive já morreram – e este meu Samsung cuja memória vem sendo alimentada tem pouco mais de um ano de carreira.

É uma avalanche diária, e não há melhor palavra para comparar. Creio que a maioria – se não a totalidade – de meus seletos leitores deve enfrentar o mesmo massacre. Ainda dá para agradecer às invenções da indústria telefônica: uma que nos permite bloquear chamadas indesejadas, que vêm com alerta de spam; outra que possibilita criar e nutrir constantemente uma ‘lista negra’ de números condenados ao silenciamento. Mas essas armas já não estão se mostrando suficientes.

Tenho como exemplo dessa insuficiência uma tal de Indiana Seguros, que só parou de me ligar depois que formalizei queixa ao Procon. Até então, tinha engordado a ‘lista negra’ dos indesejáveis com dezesseis números: você bloqueava um, eles te ligavam com outro. Uma espécie de linha-tronco, com dezenas de ramais disponíveis para te enlouquecer.

Para dar uma ideia do tamanho dessa erupção, recebi, entre os dias primeiro e dez de dezembro, setenta e seis ligações pelo celular: uma foi da concessionária Toyota, confirmando a revisão do carro; outra foi do amigo Assis Ângelo. As demais… todos nós poderíamos muito bem passar sem elas!

Principalmente porque quando você, inadvertidamente, atende ao telefone, do outro lado da linha há um silêncio sepulcral. Ninguém fala nada, ninguém te oferece cartão de crédito sem anuidade, empréstimo consignado, financiamento bancário, limpeza do seu nome no Serasa… A impressão que tenho é de que eles ligam para saber se você vai atender o telefone quando um operador de carne e osso ligar. Ou ligam simplesmente para te incomodar…

Em 2020, o número de contratações na área de telemarketing chegou a crescer 67%, mas desde então o mercado vem decaindo, e hoje é um dos setores que mais desemprega. Os robôs estão fazendo a maior parte do trabalho, e um reduzido número de atendentes humanos está a postos para solucionar algo que a mão de obra cibernética não conseguiu resolver.

Mas ainda não vi (ou ouvi) um robô oferecendo prestação de serviços pelo telefone. Será que esse dilúvio de ligações que recebo hoje é uma fase de transição até que o telemarketing seja totalmente operacionalizado por robôs?

A ver. Mas, enquanto isso, parem por favor de incomodar este pobre aposentado!

Marco Antonio Zanfra

2 comentários

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  1. Até a empresa que faz monitoramento em casa, usa robô. “Inteligência artificial”, como dizem por lá. “Senhora Cêlia, detectamos disparo no setor 4, área de serviço. Se não foi a senhora, disque 1…” e por aí vai. Se você estiver sob a mira de uma arma, pode ficar discando tudo que o robô nem vai saber o que ocorre ou teclar os número de pânico, no painel… se chegar até o painel, é claro. Antes do robô, era uma pessoa, que tinha uma senha e pedia a minha senha. E eu podia gritar por socorro. Quanto ao telemarketing, estou como você: já bloqueei tantos números que perdi a conta. Eles usam o sistema oferecido por diversas operadoras: a linha escolhida é da operadora que cobra menos, naquele horário. Daí, a infinidade de números de diversas partes do país. Uma droga!