Ora direis…

Olavo Bilac pode ter tido lá suas razões, mas não aconselho a qualquer um o mister de ouvir estrelas. Melhor ouvir um pôr do sol. Ou um nascer do sol. Algo que pareça mais próximo dos sentidos. Algo que se possa quase tocar com as retinas.

As estrelas estão lá longe, na escuridão da noite eterna. Não passam de minúsculos pontos de luz. Se você estiver amando, como sugere Bilac, pode até tentar ouvi-las, mas que mais elas podem oferecer para tingir seu mundo real? Até para iluminar uma seresta elas precisam da cumplicidade da lua.

Já o sol… Ele é soberano! Manda nas cores, manda nas nuanças de sombras, manda nos reflexos dourados que nos ofuscam, deslizando pelas franjas das águas do mar. Só o sol é capaz de criar uma rota quase física, uma estrada de tijolos amarelos que nos faria caminhar com desassombro até o horizonte.

Creio que as estrelas embebedem apenas os parnasianos, os notívagos, os selenitas. Alguém que não tenha interesse em alcançá-las e que não dependa de seu calor ou luz. Alguém que só pisaria nelas caso seu brilho fosse o reflexo da lua furando nosso zinco.

Enquanto o sol é pé no chão. Ou pé na areia. Ilumina e aquece. É um espetáculo capaz de receber aplausos na Pedra do Arpoador e voltar para o bis no dia seguinte. Resplandecente e irradiante. Um pintor impressionista. Um Monet que a cada dia renasce e carrega de tintas sua tela aberta ao deleite de nós todos.

“E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, inda as procuro pelo céu deserto”, clama Bilac. Sabendo, no íntimo, que o som fulgurante do sol não permitirá que as ouça de novo.

(A foto que inspirou este texto é de Nereu Leme, diretamente de seu recanto em  Riviera de São Lourenço, Bertioga)

Marco Antonio Zanfra

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