O Brasil que tá osso

Ainda bem que hoje vou chegar cedo para a fila do osso. Não são nem quatro da matina, o galo do seo Juca nem cantou e já estou de pé. Na pressa, atropelo o coitado do Zeca, meu maninho, que dorme no chão, num colchão do lado da minha cama. Enquanto ele xinga lá do quarto, lavo o rosto na torneira do lado de fora da casa, escovo os dentes e corro para o ponto da lotação. Pego a primeira que passa, a Kombi do Corisco, que no passado foi nosso vizinho de quintal, e acabou também virando padrinho do Zeca.

Como privamos de uma certa intimidade, só peço a ele que pise fundo. Semana passada, cheguei umas oito horas no entreposto do Ceasa, tarde pra chuchu, e não consegui nem uma unha de boi pra remédio. Claro que minha mãe ficou triste, ultimamente, ela conta com os ossos que eu e meus irmãos garimpamos nos lixos dos açougues lá do centro pra preparar o nosso “cardápio” da semana.

Só que o centro é muito longe do nosso barraco, umas três horas de viagem, daí pra mais. Além da lotação, temos que pegar mais umas três conduções. Damos um jeito de viajar sem pagar, mas ainda assim é complicado. Acho que foi a vizinha Zulmira quem me falou do Ceasa, mais pertinho de casa, 40 minutos, só a lotação. Ela só não me avisou que tinha de chegar muito cedo. Cheguei tarde da outra vez, me lasquei. Hoje não, madruguei, quero ver se pego pelo menos uma canela de boi. Dá pra tirar uns nacos de carne e ainda sobra pra sopa de fubá e, às vezes, até pro mocotó. O da minha mãe é de lamber os beiços.

No entreposto, a coisa funciona mais ou menos assim: os caras descarnam as peças de boi no dia anterior. Raspam tudo até os ossos, que são jogados numa caçamba grande. Claro, sempre sobra uma lasquinha de carne aqui ou ali. À noite, um trator puxa a caçamba para o pátio, onde ela permanece até o dia seguinte. De manhã, mal são abertos os portões, a multidão já corre para disputar os restos. Felizmente ainda é inverno, está um pouco frio de madrugada, o que ajuda a conservar o material mais ou menos fresco. No verão, a coisa complica, e chega a juntar até urubus por ali. Aí, não bastasse o mau cheiro, o pessoal ainda tem que brigar com as aves por um pedaço de osso, vejam só.

Cheguei mais cedo, mas já tenho concorrência. Pelo menos umas 10 pessoas aglomeradas em frente do portão, que abre às 6 horas. Organizado que sou, tento formar uma fila, a turma obedece resmungando. Aliás, a fila não adiantou nada, pois foi só abrirem os portões para o pessoal (agora quase 200 pessoas, todas famintas como eu) provocar uma espécie de estouro da boiada, conforme o pessoal da roça conta. Sorte minha, que sou franzino e corro bem. Salto na frente e consigo ser o primeiro a chegar na sonhada caçamba.

Os ossos, pedaços de sebo e membranas descartáveis (do boi se aproveita tudo, ou quase tudo, né?) caem pelas laterais. Já juntou umas varejeiras, dá um certo nojo, mas o estômago vazio fala mais alto. Grudo um pedação de osso – acho que era um dianteiro – e tento puxar. Sorte minha, que um rapaz do meu lado me dá uma força. Saio de fininho com o ossão nas costas, enquanto os demais se estapeiam ao redor da caçamba. Na banca de jornal, perto do ponto da lotação, consigo uns jornais velhos para embrulhar meu “tesouro”.

A turma da Kombi, ao ver aquele pacote malfeito, malcheiroso, me olha atravessado, alguns tapam o nariz, mas eu não tô nem aí. Sou um brasileiro pobre, como 80% da população, que precisa comer. O mais importante é que minha mãe vai ficar contente desta vez, com este ossão, nossa ração da semana está garantida. Não é fácil cuidar de cinco filhos, uma escadinha dos 10 aos 15 (eu sou o mais velho), sem marido, e ainda ter que trabalhar fora. Da mesma forma, devem estar felizes meus outros companheiros de fila, que conquistaram o “osso nosso de cada dia”, porque muitos nem isso conseguem.

Manoel Dorneles

2 comentários

  1. Estava na cara que cedo ou tarde chegaríamos a isso, a ficção imitando a vida, não o contrário! Quando se tem um desgoverno que busca reduzir a desigualdade social matando pobres e idosos, esperar o quê?

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