O boteco do Zé fechou

Logo que a pandemia acalmou, Beto saiu correndo para tomar umas no Boteco do Zé. Chamou um Uber e lá se foi encontrar amigos e frequentadores que não via há quase dois anos. Tava fechado com um bilhete do Zé na porta:

“Gente, me desculpa, mas ‘guentei’ o quanto pude. Não deu mais. Tive que fechar o boteco. Sinto muito, muito mesmo. Voltei para minha terra, lá em Iguatu, no sertão do Ceará. Do lado de Orós! Quem quiser, apareça, vou abrir uma birosca lá. Abraços pra todos procêis, especialmente pras moças, Zé.”

Beto não foi o primeiro a chegar. Outros lá estavam, com aquele mesmo jeito de quem está num velório. Entre eles, dois ou três amigos do Beto. Se abraçaram e choraram, como se fossem três meninos que perderam a bola. E não apenas eles choravam. Alguns sozinhos, outros em grupos como eles. Alguns, revoltados, chutavam a porta, como se isso promovesse um milagre e o Zé a levantasse e dissesse: 1º de abril em setembro!!!

Mas nada, a porta permanecia ali, impassivelmente fechada.

– O Zé não podia ter feito isso com a gente. Era a frase mais ouvida.

– E agora quem vai fazer aquela caipirinha que só o Zé sabia fazer, fritar aquela macaxeira com perfeição?

– E o torresmo, melhor até que aquele do Bar do Bigode, em Juiz de Fora (MG), considerado o melhor do Brasil?

E as pessoas foram chegando e aumentando o clima de velório no lugar, naquela esquina ali no alto da Lapa. As moças falavam da gentileza do Zé, que sabia exatamente a batida que cada uma gostava e das deliciosas coxinhas que ele fazia com a ajuda da Joana, seu grande amor. (Na verdade, ela era a autora das coxinhas e empadinhas, mas dava a ele o crédito. Coisas do amor, né?).

O tempo foi passando, mais gente chegando, causando o maior “auê” no pedaço. Cada um, cada uma, tinha uma boa história para contar sobre o Zé.

– Lembra daquele dia que o cara chegou aqui chorando porque tinha tomado um fora da namorada? Depois de umas 5 caipirinhas, apagou. Uma das histórias lembradas. Ninguém conhecia o rapaz, que nem celular tinha. O Zé juntou três cadeiras e o deitou nelas.

A noite acabou, quando quase todo mundo foi embora, o Zé não sabia o que fazer com o “belo adormecido”. Com a ajuda dos últimos fregueses, montou uma cama de papelão no chão e deitou lá o sujeito, deixando um bilhete explicando que voltaria lá pelas 11 da manhã. Chegou no dia seguinte com uma garrafa de café e tapioca. O cara estava vivo, virou freguês e lá estava ele, com uma nova namorada, chorando o fim dos Boteco do Zé.

Quantos Botequins do Zé não existem por esta terra descoberta por Cabral, que deixaram órfãos outros tantos Betos e caras que foram abandonados por suas namoradas. Gente que frequentava botequins com amigos e encontrava pessoas que nunca viu, mas tinham o mesmo objetivo: convivência, a socialização. Coisa que esta maldita praga nos privou por tanto tempo.

Chicolelis

4 comentários

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  1. Eu me senti mais ou menos assim – ‘mais ou menos’ porque na época já não bebia mais – quando voltei do Japão e descobri que o bar que eu tinha frequentado durante nove anos (ao lado da Folha) não existia mais, e em seu lugar tinha sido aberto um estacionamento.

  2. É Chico, por enquanto são milhares de botecos do Zé fechados por este país a fora. Pelo rumo que as coisas estão tomando, vamos rezar pra que não fechem também as portas deste enorme botecão chamado Brasil. Estamos lascados!!!

  3. Verdade Dorneles, a cada dia que passa a porta do nosso botecão baixa um pouco. E não se vê nenhum movimento, sério, honesto, verdadeiro, para que isso não ocorra. Nenhum!!!!!

  4. Eu também lamentei muito quando fechou o Bar do Zé lá da Maria Antônia. Morava em frente antes de me mandar aqui pra Arraia da Ajuda. Era um bar emblemático… uma pena!