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Nosso bandido de estimação

O ex-prefeito ficou seis anos sem aparecer na cidade. E, quando chegou foi recebido com festa, fogos de artifício, carreata e o escambau. Ao povo que o acolheu de braços abertos, não fazia diferença que ele estivesse distante esses seis anos porque cumpria pena por pedofilia e fraude em licitação, crimes cometidos durante o mandato. Aquilo fazia parte do passado.

O mesmo aconteceu com um certo goleiro que mandou matar, esquartejar e dar os pedaços de sua ex-namorada aos cães. Bastou ele sair da cadeia para se ver cercado por uma multidão de adoradores – incluindo mulheres – loucos para uma selfie ao lado do ídolo. O que ele fez também ficou no passado. Nada o impedia de ter uma segunda chance. O fato de a namorada não ter também esse direito a uma segunda chance era irrelevante.

Isso é o quê? Memória curta? Baixa autoestima? Versão genérica da Síndrome de Estocolmo? Simples culto à personalidade, não importa o que ela tenha feito?

Já ouvimos mais de uma vez que o brasileiro é um povo que precisa ser estudado. Uma gente que releva assim os mais absurdos comportamentos criminosos não é normal. Capaz de brigar para posar ao lado de Charles Manson, Jim Jones, Jack o Estripador ou Mark Chapman só pelo fato de eles serem famosos. Não importa o que fizeram.

Pessoalmente, acho que o brasileiro procura justificar os malfeitos de seus ídolos para não arrefecer sua idolatria. E com isso chega perto do perdão. Não importa que seu calo esteja sendo pisado. Só isso pode explicar pobres defendendo um governo que saqueia seus direitos, negros justificando a necessidade da escravidão, gays apoiando homofóbicos e mulheres aplaudindo a misoginia…

Não, o brasileiro não precisa ser estudado. Porque seu mal já está definido biblicamente – quando Deus estava criando o mundo e livrando o Brasil de desastres naturais, vulcões, furacões e terremotos, justificou-se para Pedro:

“Você vai ver o povinho que eu vou botar lá…”

(Em tempo – Sei que alguém vai reclamar que não citei Lula entre os presos que foram recebidos como heróis, mas há uma explicação: para seus seguidores, o ex-presidente é um mito – no sentido amplo da palavra, e não na acepção xexelenta usada atualmente com certo ser abjeto – e suas condenações são absolutamente persecutórias. Portanto, Lula é inocente até que provem aos lulistas o contrário.) 

Marco Antonio Zanfra

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