Nossas broxadas diárias

Atire a primeira pedra, quem nunca deu uma mancada, quem nunca capengou, pelo menos uma vez na vida, e deixou o parceiro ou a parceira na mão. O avanço assustador do Coronavírus, no início do ano passado, deixou em segundo plano um assunto, que prometia e já ganhava algum destaque nas redes sociais: a broxada.

Tudo começou quando um sujeito do BBB Brasil “relaxou” sob o famoso edredom, mas relaxou tanto, que deixou sua parceira a ver navios. O mais broxante de tudo isso seria assistir ao BBB, resenhar a broxada de uma subpersonalidade dessas ou repercutir o fato nas redes sociais como muitos fizeram? BBB às favas, o que nos interessa aqui é tentar descobrir como e porque, vez ou outra, o homem não consegue cumprir com suas “obrigações”.

Notem que coloquei obrigações entre aspas, pois nem sempre o que ocorre entre quatro paredes é inteiramente de responsabilidade dele. Ou se esse “default” costuma ocorrer exatamente porque, desde muito cedo, incutiram na cabeça do infeliz que ele sim (e só ele) é o grande responsável pela “missão”.

No sentido figurado, seria como se o voo e a descida da nave no solo marciano dependessem exclusivamente de um único astronauta. Não sei quanto às mulheres, mas a verdade é que nós, homens, não somos nada complacentes com broxadas, seja nossa, seja de nossos amigos ou de alguém “famoso”. Basta o assunto vir à tona na rodinha para terem início os sorrisinhos sarcásticos, as piadinhas, quando não a condenação ao fogo dos infernos daquele ser incapaz de cumprir com seus compromissos.

Evidentemente mulher também broxa, mas não é aparente e, além disso, acredito que não tenhamos maturidade suficiente para percebê-lo.

Por outro lado, a pergunta que não quer calar é: qual seria realmente a reação delas diante do nosso fiasco? Se perguntarmos para 100 mulheres, com certeza mais de 80% delas vão responder “sim, ficamos frustradas”.

Algumas vão se sentir deprimidas, crentes de que foram incapazes de despertar nele o desejo suficiente para serem desejadas. Outras, imaturas ou com baixa autoestima, têm a resposta na ponta da língua: “Desde sempre, ouvimos dizer que homem não pode ver mulher nua, que vai logo ficando excitado. Ficamos pê da vida mesmo e, juramos, nunca mais sair com o camarada.” 

No entanto, existem aquelas mais esclarecidas que aproveitam a situação para discutir, aprofundar a intimidade na relação. Para essas, a falha não chega a ser um problema grave, apenas um incidente de percurso, que pode ocorrer com qualquer um. Depois de uma boa massagem relaxante, nada melhor do que religar o motor, engatar uma primeira e sair cantando os pneus.     

Quer queiramos, quer não, todos nós, seres humanos, já broxamos pelo menos uma vez na vida. E não estou falando aqui apenas no sentido sexual do termo. Broxamos quando, uma vez eleito, nosso candidato não corresponde às expectativas criadas com tanto alarde na campanha eleitoral.

Broxamos quando iniciamos um curso universitário, nos matamos de estudar e, quando de posse do diploma, constatamos que não era bem aquilo que planejávamos para nossas vidas.

Broxamos quando nosso time investe os tubos em contratações no início do ano e, ao final, não levanta um único caneco. Broxamos quando nosso ídolo, que foi um dos melhores jogadores do futebol mundial, anda por caminhos tortos e acaba preso no Paraguai com passaporte falsificado.

Broxamos quando, depois de ralar sete anos, de olho na “Raquel, serrana bela”, Labão, o pai dela, aparece no altar com a mal diagramada Lia.

A vida é assim, uma broxada aqui, uma levantada ali na frente, um outro tombo mais adiante, e assim por diante. Agora mesmo, tenho certeza de que o mundo inteiro broxou por causa do Coronavírus, mas a vida segue… Da mesma forma que o chifre, que é um acessório exclusivo do homem, mas o touro usa de enxerido, a broxada é, por direito, um adereço do ser humano. Portanto, use com moderação!

Manoel Dorneles

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