Nossa bruxa do bem

Morávamos todos no sítio, só dois quilômetros da cidade, que para nós, ali pelos seis, sete anos, pareciam mais de dez. A estrada de terra era o único acesso à escola, no centro, ao lado da igreja matriz. Eu, o Zeca e o Tiãozinho. “Vão vê quem chega primeiro na casa da bruxa!” era a senha para a correria. Mas era só avistar a velha paineira, ao lado do portãozinho de madeira, para “mudarmos de calçada” e fazermos o sinal da cruz. O fato é que ninguém nunca tinha visto a moradora, tampouco sabia sua idade, se morava sozinha, acompanhada ou…

A casa, pequena, paredes de taipa e telhado de sapé, ficava mais ou menos na metade de nosso trajeto. Acho que tinham galinhas no terreiro, uma pequena horta nos fundos e um cachorro magro a vigiar o quintal. Falo isso de ouvir o Zeca contar (mais afoito do que nós, um dia ele se atreveu a olhar por cima do portão), pois eu mesmo nunca tive coragem. Arrepiava só de lembrar das histórias que os adultos contavam. Diziam que à noite a velha tapera ardia em chamas e, em meio à fumaça, um bando de “coisas ruins” dançava e fazia um escarcéu dos diabos. Só podia.

Um belo dia de primavera, em outubro, sol já a despencar no horizonte, ao voltarmos da escola, a vimos: encostada no portão, vestido cinza, cabelos brancos, enrolados em um coque, ela olhava em nossa direção. Não rimos mais; mudos, reduzimos as passadas, mas ela continuava a olhar, agora com uma espécie de sorriso. Mais perto da casa, fez sinal para que nos aproximássemos. Nos entreolhamos, receosos, até que o Zeca decidiu cruzar a estrada. Eu e o Tiãozinho fomos atrás.

Nada de nariz adunco ou verrugas, nada de cheiro de enxofre, apenas o de lavanda ou alfazema, sei lá. Com um leve sorriso, ela fez sinal para que entrássemos. Devia ter uns 50, 90, 100 anos, mas andava ereta. Gozado, nem fiquei arrepiado, apenas a segui juntamente com meus amigos. O cachorro, deitado à porta, nem saiu do lugar; na calmaria daquela tarde, apenas o canto das cigarras e o cacarejar das galinhas. Nós, após um ligeiro titubeio, entramos na casa. O chão, de terra batida, era incrivelmente limpo, bem como os poucos móveis e utensílios na sala. O cheiro era agradável.

Sobre a mesa, cobertos por um mosquiteiro, diversos pratos com doces. De cidra, pêssego, abóbora (meu favorito), pudim, balas de coco, suco de limão… Ela, sem dizer uma única palavra, tirou a toalha e sugeriu que comêssemos. O Zeca encheu a boca, Tiãozinho fez o mesmo; imitei-os e confesso: nunca comi um doce de abóbora tão gostoso. Em silêncio, nos fartamos e nos preparamos para a retirada. “Brigado”, dissemos à guisa de agradecimento; ela apenas sorriu. Saímos correndo e, ainda no quintal, falamos alto, rindo, a indagar se não íamos ter uma tremenda dor de barriga. Já na estrada, olhamos para trás, e vimos que ela fechara o portão, a porta, as janelas.

Combinamos de não contar a ninguém em casa. No dia seguinte, a caminho da escola, nos aproximamos da casa. Vimos o portão escancarado; entramos no quintal, nem sombra do cachorro e das galinhas. A casa, com as portas e janelas abertas, estava vazia. Ela se fora. Era 1º de novembro. Desapontados, mas felizes, descobrimos que, se de fato fosse ela uma bruxa, era “do bem”. E escolheu justamente a nós, para juntos, festejarmos o seu dia…

Manoel Dorneles

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