Nós e nossas rebordosas

Não sei se vocês concordam, mas rebordosa é daquelas palavras do nosso rico léxico, como tantas outras, fadadas ao esquecimento. Certeza de que muitos entre os mais jovens jamais a ouviram, usaram ou sequer sabem os seus significados, diferentemente de nós, que vivemos intensamente os anos 1970, 1980. Aliás, quem já passou dos 60, não se esquece de uma “rebordosa” famosa – dormimos com ela em 31 de março de 1964 e acordamos só em meados dos anos 1980. E ainda hoje, vira e mexe, não falta alguém para nos lembrar (ou ameaçar) com esse pesadelo. Mas, antes que que me perca pelos atalhos, quero falar de outras rebordosas.

Como estava a dizer, o termo tem a ver com gritaria, confusão, censura, encrenca e ressaca, aquele mal-estar do dia seguinte pós-bebedeira. É aqui que eu entro para falar de uma outra rebordosa, provavelmente, a mesma que inspirou o cartunista Angeli a batizar um de seus mais famosos personagens. A Rebordosa do Angeli era a principal estrela da revista Chiclete com Bananas, criada por ele e outros cartunistas renomados e, também, das tirinhas da Folha de S. Paulo. Imaginem uma balzaca empoderada, sozinha na vida, que bebia, fumava, cheirava, topava todas enfim, uma figura capaz de emendar facilmente a noite com dia, e vice-versa, todos os dias do ano. Virou peça de teatro, filme, a figura cresceu tanto que, um certo dia, seu criador, pressionado, decidiu dar cabo dela. Morreu com direito à capa da revista e tudo o mais.

Sempre que indagado, Angeli desconversa, nunca revelou a ninguém quem foi sua musa inspiradora, a mulher que o levou a criar o personagem. Eu também não revelaria, nem a pau. Aliás, confesso que convivi um bom tempo com uma jornalista que, segundo algumas fontes, teria inspirado o cartunista. Não por acaso, longe dela, é claro, a chamávamos de “Rebordosa”. Depois de perambular pela grande imprensa, ela, ali na faixa dos 50, estacionou em uma publicação segmentada, onde a conheci. A exemplo do modelo original, nossa rebordosa topava todas. Difícil acompanhá-la numa noitada, pois o nosso gás acabava sempre antes. O dela, pelo contrário, parecia infinito e, mesmo quando o nível parecia baixo, ela pedia mais uma vodca ou ia “retocar a maquiagem” na toalete, de onde voltava, aparentemente, zero bala.

Esse mesmo espírito, digamos, rebordosístico, que ela cultivava no Brasil, estava presente também em suas viagens internacionais. Mais de uma vez a ouvi gabando-se das artimanhas que fazia para transportar seus “suplementos” e “aditivos”, sem que fosse parada nos aeroportos pela Polícia Federal. A propósito, certa vez, fomos convidados por uma assessoria de imprensa para um famtur a Pucon, um paraíso a cerca de 800 quilômetros ao sul de Santiago (Chile). Nem entramos em detalhes, mas o fato é que mal chegamos ao nosso destino, eis que ela surge no hotel, toda sorridente, com o seu precioso cigarro alternativo. Até aí, tudo bem, mas calhou de um dia fazermos um passeio a um espaço dos mapuches.

Nosso grupo, cerca de oito pessoas, foi recebido com muita gentileza pelo guardião do local. Ele nos contou um pouco da história de seu povo, mostrou como eles vivem hoje, as tendas de artesanato e um local, onde são celebrados os cultos. Apontou até um arbusto, cujas folhas, secas, são usadas nos cachimbos durante os cerimoniais. Não devia ter feito isso. Enquanto o índio falava, “Rebordosa” deu a volta por trás da roda e começou a colher as folhinhas e enfiar na bolsa. Para ela, inocente, o “cigarrinho” de amanhã estava garantido, mas para ele, tratava-se de uma profanação. Olha, por pouco não fomos expulsos do local. Claro que, na volta, ela teve que ouvir um baita sermão do nosso guia, que negociou com o mapuche, e de todo o restante do grupo.

Pensam que acabou? Nada disso. A viagem de avião até Pucon passa por uma escala na capital chilena. No retorno, o nosso grupo se dispersou, parte tinha voos em outros horários, parte permaneceu em Santiago. Apenas eu e a minha amiga “Rebordosa” viemos direto para o Brasil no mesmo horário. Enquanto aguardávamos nosso embarque, coloquei minhas malas e as dela num carrinho e ficamos a passear pelos corredores. Em frente do balcão da Iberia, uma grande fila de passageiros fazia o check-in, provavelmente, com destino à Espanha.

Ao lado da fila, alguns cãezinhos farejadores, sob as ordens de agentes da polícia federal deles, davam uma geral nas malas dispostas no chão. Ao ver os cachorros, minha amiga, apertou a bolsa contra o peito, acelerou o passo e me deixou para trás com as malas. Não demorou muito para eu entender o porquê de sua pressa. Então, foi a minha vez de lhe “passar um sabão”. Só não a chamei de santa. Claro que ela tinha algo suspeito na bolsa ou sei lá onde, mas se fosse na mala, com certeza, eu é que estaria ferrado.

Manoel Dorneles

3 comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

  1. Bravo, Dorneles… um texto que me mostra, mais uma vez, o incrível jornalista que você é!

  2. Acho que vc não conhece não. Esta aqui , nos seus bons tempos de Folha, estava no Estadão