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No mundo de 2070

Como estará o planeta daqui a cinquenta anos? Ou melhor: como você acha que estará o planeta daqui a cinquenta anos? Que tal arriscar um palpite?

Fazer exercícios de futurologia pode ser interessante – embora quase sempre frustrante: nem sempre os indicativos nos levam a situações reais que nos pareciam plausíveis numa análise prévia. Podemos ter premissas que nos apontem para uma pandemia aniquiladora em breve, mas uma reviravolta no meio do caminho pode salvar a Humanidade e, ao mesmo tempo, torná-la mais solidária.

Baseados no que temos em 2020, como poderá ser 2070? Teremos carros voadores que se transformam em pequenas maletas e dispensam o inferno dos estacionamentos, além de empregadas domésticas chamadas Rose que serão autômatos com inteligência artificial, como em ‘Os Jetsons’?

Teremos uma sociedade dominada por um poder totalitário que controla tudo e todos, atribuindo à população missões meramente constitutivas e mecânicas e abolindo a inteligência e a personalidade, como em ‘1984’, de George Orwell, ou ‘Fahrenheit 451’, de Ray Bradbury?

Teremos skates flutuantes como os que Marty McFly usava no fictício ano de 2015 que foi cenário do filme ‘De Volta para o Futuro 2’?

[Parênteses: as obras citadas, todas elas, não deixam de ser exercícios de futurologia – ‘De Volta para o Futuro 2’ é de 1989; ‘1984’ foi publicado em 1949; ‘Os Jetsons’ começou a ser exibido em 1962; ‘Fahrenheit 451’ foi publicado em 1953. Podemos dizer que o autor de nenhum deles faria sucesso como futurólogo, no entanto.]

Mas não escrevi essa baboseirada toda de graça. A ideia de pensar cinquenta anos à frente surgiu depois que, por mero acaso, descobri na internet  um filme de 1973 que tenta pensar cinquenta anos à frente – ou seja, hoje. E exagera no pessimismo, temos de reconhecer.

‘Soylent Green’, do diretor Richard Fleischer, traz Charlton Heston cinco anos depois de escapar do planeta dos macacos, e o sugestivo título, em português, ‘No mundo de 2020’. Quem ficaria indiferente diante da possibilidade de saber como, em 1973, o cinema via como estaríamos vivendo hoje?

Na verdade, a ação se passa em 2022, numa Nova York com quarenta milhões de habitantes, quase quatro vezes sua população atual, e com centenas de pessoas miseráveis acumulando-se numa igreja ou dormindo em escadas de prédios. Ondas de calor – aquecimento global? – são constantes e há escassez de água e alimentos.

Tudo é racionado e os miseráveis fazem fila para encher um galão com água potável ou adquirir a ração alimentar: basicamente, o ‘soylent green’, um composto feito, segundo a informação oficial, a partir do plâncton marinho (há uma versão ‘yellow’ do produto, obtida através da soja).

Há, claro, como em toda distopia, uma elite que mora em apartamentos luxuosos, mobiliados com requinte – uma bela mulher, aliás, é considerada ‘mobília’ e acompanha o apartamento a cada novo morador – e merecedores da comida que o restante da população nem sonha ver: tem gente que nem sabe como é um morango ou um cacho de uvas e nunca teve contato com um bife de carne de vaca. A energia elétrica não é fornecida por concessionária, mas produzida individualmente por geradores movidos a pedal. Tem gente que não sabe o que é banho quente.

Os mortos são levados a uma usina de eliminação de corpos em caminhões iguaizinhos a esses compactadores de lixo que fazem a coleta doméstica. E eu não vou dar ‘spoiler’ do que eles fazem a partir dos cadáveres.

Heston é o policial Robert Thorn, que investiga o assassinato de um membro da elite (William Simonson, membro da Soylent Corporation, que fabrica o composto alimentar). É auxiliado extraoficialmente pelo bibliófilo Solomon ‘Sol’ Roth – um Edward G. Robinson encanecido, em seu último filme – que, pela idade, é anterior à escassez da época e, acreditem, até comeu carne! Para se ter uma ideia do que é ‘falta tudo’, quando vai ao apartamento da vítima de homicídio, Thorn aproveita-se para furtar coisas às quais jamais teria acesso: uma toalha de banho, um sabonete, uma garrafa de uísque ‘americano’ pela metade, duas maçãs minúsculas, alguns lápis e uma folha de papel ‘novo’. Diante das maçãs, Sol chora: “Como chegamos a isso?”

Resumindo: a elite não quer que Charlton Heston descubra por que Simonson foi morto e, numa reunião dentro de um armazém inflável com duas ou três pequenas e esquálidas árvores, onde antes havia o Gramercy Park, decide que ele deve ser eliminado. Há intensa troca de tiros – todos armados de revólveres, embora mesmo em 1973 já estava em uso a pistola semiautomática – e ele acaba ferido e revelando o segredo que descobriu na usina de corpos. O filme termina antes de sabermos se ele sobreviveu.

Em tempo: para os que decidem pôr fim à vida, existe um lugar conhecido como Casa, que é um centro onde se procedo à eutanásia, em condições que o paciente escolhe. Sol Roth quis morrer em quarenta minutos, com uma luz alaranjada tomando conta do ambiente, ao som de ‘música clássica suave’ – ouviu a Sexta de Beethoven e Morning Mood, de Edvard Grieg – e com um telão onde abundam imagens de vida: animais, cachoeiras, flores… Foi no caminhão que transportou o corpo do amigo que Thorn chegou à usina de corpos e descobriu o segredo do ‘soylent green’, cujo ‘spoiler’ não esperem de mim!

Marco Antonio Zanfra

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