Mulheres

Entre as milhares de citações brilhantes do mestre Millôr Fernandes, uma vem bem a calhar:

Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor.

É uma verdade incontestável.

Quer algo mais bonito do que anatomia humana aplicada ao corpo de uma mulher? As suaves e macias reentrâncias da cintura, como pequenas enseadas convidativas à ancoragem… Os seios qual cômoros verdejantes que o vislumbre de um decote sobressai no horizonte árido…

O corpo feminino é poesia. É pintura. Seja nas gordinhas de Rubens, Renoir ou Botero. Seja nas devassas de Toulouse-Lautrec, ou nas mulheres de traços marcantes de Portinari, Gauguin ou Di Cavalcanti. Ou mesmo na vanguarda de Picasso, ainda que o nariz de suas musas nem sempre esteja devidamente posicionado entre os dois olhos.

O corpo feminino é arte, sua visão é um convite ao deleite diário e contínuo, mesmo que o exemplar tenha, como dizem as más línguas, idade para ser sua filha.

Ora, tecnicamente tenho idade para ser pai de uma mulher de 50 anos – já que atingiria a capacidade de procriar aos 14 ou 15. Portanto, o argumento perde força. Mesmo porque a arte não tem idade. Se tivesse, a Vênus de Boticelli – que provoca em mim quase a mesma satisfação visual e uma vênus ao vivo – teria idade para ser minha o quê, já que foi pintada em 1485?

Mas dizem que isso vai acabar. Dizem que as mulheres estão a caminho da extinção. E por uma questão puramente matemática: as mulheres em idade fértil não estão gerando filhas suficientes para substituí-las. Portanto, se não houver uma reversão desse quadro de fertilidade, o número de bebês do sexo feminino será cada vez menor, cada vez menor, até a completa extinção do ainda chamado – pelo menos por mim – sexo oposto. 

Um exemplo dessa marcha inexorável rumo à masculinização da humanidade está em Hong Kong. Lá, pelas taxas de fertilidade atuais, um grupo de mil mulheres daria à luz 547 meninas, que por sua vez gerariam apenas 299 filhas, que por sua vez gerariam cada vez menos, até que a população feminina de Hong Kong, hoje quase chegando aos 4 milhões, alcançasse o número expressivo de apenas uma representante, a ser parida no ano de 2.798. Ou seja, daqui a somente 784 anos. 

Minha meia dúzia de sete ou oito leitores do sexo masculino podem tranquilizar-se um pouco, todavia: a situação no Brasil não é tão dramática. Por aqui, neste país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, a última mulher deve nascer apenas nas proximidades do ano 5 mil, o que garante uma carência ainda bem grande para desfrutarmos das delícias da espécie. 

Mas, depois disso, o caos. Já antevejo: ou vai liberar geral – como muitos já vêm fazendo – ou partimos para os chamados esportes individuais.

Marco Antonio Zanfra

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