Morrer dormindo

Dos jornais: “Sean Connery morreu enquanto dormia.” Portanto, sem sofrimento.

É por aí: não tenho nenhuma pesquisa que confirme esse dado, mas creio que a maioria de nós gostaria de morrer assim: dormindo. Alheio ao que seria a transposição ao desconhecido, sem sentir dor, sem a expectativa titubeante diante do que vai encontrar atrás da porta! Se acordar depois, tudo bem, o pior já passou!

Esse tipo de desejo latente de não acompanhar o próprio epílogo é constante sempre que corre alguma balela a respeito de que o fim do mundo finalmente chegou. No dia seguinte a esse boato, o que mais se lê nas redes sociais é: “Acordei e o mundo não tinha acabado…” 

Como se ele não pudesse explodir a qualquer momento, ou ser atingido por um meteoro gigante no decorrer do dia… Por que deveria ter sido durante a noite, em nosso período de sono?

Não deixa de ser compreensível essa temporização da tragédia. O medo que as pessoas têm de se defrontar com o final dos tempos, seja ele coletivo ou individual, encoraja a ideia de que o mundo tem de acabar durante nosso repouso noturno. “Quero morrer dormindo” é um desejo nem sempre manifesto, mas creio que endossado pela maioria das pessoas.

Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, nossa passagem por este mundinho vai acabar, mas ninguém deseja viver conscientemente o momento da passagem, justamente por não saber como é – ou como será antes, durante e depois. Pode ser traumático! Quem já passou não voltou para contar como é. E viver a experiência definitivamente não encoraja ninguém.

Mas como será que é? Uma figura magra vestida de trevas com uma foice na mão? Uma dor lancinante e uma escuridão total em seguida? Uma transição imperceptível, a ponto de demorarmos a entender que aquele corpo que estamos vendo ali deitado é o nosso, como no filme “Ghost”? Um buraco negro nos absorvendo ou uma luz branca nos guiando?

Quem sabe? Definitivamente, deve ser melhor morrer dormindo, mesmo. E descobrir o resto – se é que há resto a descobrir – quando acordar.
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Mas por que o fim do mundo teria de ser assim? O catolicismo passou séculos tentando nos convencer de que o Apocalipse será algo aterrorizante, com o chão se abrindo em chamas e os quatro cavaleiros descendo do céu cinzento brandindo as espadas vingadoras, e as pessoas desabando em direção às profundezas com os rostos crispados de dor e desespero, enquanto se arrependem de seus pecados…

E as pessoas acham que isso tudo vai acontecer enquanto elas estiverem dormindo? Um espetáculo pirotécnico, dantesco, cheio de efeitos especiais, para meia dúzia de guardas noturnos e outra meia dúzia de boêmios, bêbados o suficiente para não entenderem a extensão do que estão vendo?

Para fazer jus ao que nos vendeu a Igreja Católica esse tempo todo, acho que, no mínimo, o Apocalipse deve beirar a superprodução, em horário nobre, e começar com um mestre de cerimônias – alguém parecido com o Charlton Heston, se não o próprio – murmurando com um sorriso sardônico nos lábios, em meio a um clarão de relâmpagos: “Show time!”

Quanto a morrer dormindo, acho que comigo não vai rolar, não… Tenho o sono tão leve que com certeza vou acordar para assistir ao meu próprio desenlace.

Marco Antonio Zanfra

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