Minha mãe também era uma peça

Não sei quanto a de vocês, mas minha mãe, plagiando o saudoso Paulo Gustavo, sempre foi uma peça. E não pensem que é de hoje, não. Nascida na roça, região entre sul de Minas e nordeste de São Paulo, no início do século passado, viveu bem até os 97 anos.

Dona Jovina nunca foi dada a certas modernidades. Não alisava, falava o que lhe dava na telha. Com ela não tinha esse negócio de “tapinha não dói”, sentava o relho sem dó nem piedade – mas esse é um assunto pra mais tarde.

Mais velha de uma família de 12 irmãos, não era muito chegada ao trabalho pesado, à capina diária do café, feijão ou milho, por isso tratou logo cedo de aprender com a avó o ofício da costura. E virou uma costureira de mão cheia, como se dizia antigamente. Era daquelas de olhar o modelito no corpo da pessoa e fazer igualzinho. Costurava para os familiares e para a vizinhança.

Adulta, no seu ofício, vez ou outra, era convidada a executá-lo nas casas dos “turcos”, comerciantes abastados das cidadezinhas da região. Viu todas as irmãs mais novas se casarem, enquanto ela, coitada, mal podia namorar. O pai, muito severo com ela, não deixava. A muito custo, quando já beirava os 40 anos, deu a mão dela em casamento ao seo Ulisses, meu pai, 15 anos mais novo.

Viveram bem, juntos por mais de 40 anos, quando ele, vítima do mal de Chagas, se foi deste mundo. Ela sempre o ajudou. Enquanto ele dava o duro na capina diária do café, ela costurava, cuidava da casa, fazia queijos e cuidava dos frangos, que vendia no mercado de Poços de Caldas. Teve três filhos, dois abortos. O primogênito Francisco morreu com apenas um ano e meio; dali oito dias eu nasci.

Cinco anos e meio mais tarde, quando ela tinha mais de 46 anos, chegou minha irmã. Nascida ali no sítio mesmo, só com parteira. Não me deixou acompanhar o parto, me mandou para a casa de um tio ali perto. Aliás, puritana que só ela, não me deixava nem relar nela, quando meu pai se ausentava, e dormíamos na mesma cama. Filho encostar na mãe é pecado. Mas eu era o companheiro dela pra tudo quanto é canto que ia.

Certo vez, tinha eu uns cinco anos, quando tomamos a jardineira do seo Dário, de Divinolândia para Poços de Caldas. Numa freada brusca do veículo, ela não teve tempo de me segurar e eu e bati o supercílio numa cesta à nossa frente. Lembro que o chofer, todo preocupado, parou o ônibus e ajudou a cuidar do ferimento, cuja cicatriz carrego até hoje. Ela também me ensinou, desde pequenino, a falar obrigado e a tratar todo mundo por “senhor”.

Obediente, eu seguia seus conselhos até que um dia ela percebeu que tinha ido longe demais. Disse que não era necessário eu tratar de “senhor” um menino de seis anos, a mesma idade que a minha.

Desde pequeno era eu também quem a ajudava no trato doméstico. Varria a casa, lavava a louça, buscava água na bica cuidava das galinhas e, principalmente, dos pintinhos, prato preferido dos gaviões “Casaco de Couro”, cujos ninhos ficavam numas araucárias a uns 500 metros de casa.

Quando tinha uns oito anos, mudamos para São Paulo, ela continuou a costurar e eu na rotina dos afazeres da casa. Com nove, dez anos, comecei a ficar mais desleixado, só queria saber de brincar e, muitas vezes, esquecia de lavar a louça.

Quando ela chegava do Brás, onde ia comprar tecidos, ali pelo meio-dia, e via o serviço por fazer, jogava todas as louças no quintal e tentava me bater de todo jeito. Era cinto, chinelo, vara de marmelo, pau e até relho mesmo. Claro que eu corria, não sou bobo, pelo menos não era. Irritada, ela esperava meu pai chegar pra envenená-lo de tal forma, que ele me segurava pra ela me bater.

Houve ocasiões em que ela chegou a pagar para os meninos maiores me segurarem pra ela descontar sua raiva em mim. Minha irmã, quando ficou maiorzinha, também sofreu nas mãos dela. Ao lavar a louça, vira e mexe, quebrava xícaras. Neste caso, ela encontrou um jeito insólito de castigá-la: juntou todas as xícaras quebradas ou o que restou delas, fez um colar e obrigou-a a usá-lo pelo resto do dia.

Pois é, essa era a minha mãe. Apesar da braveza, e da falta de recursos, sempre cuidou bem de nós. Sempre se preocupou com a nossa educação, com a nossa alimentação, saúde, o nosso bem-estar. Falava “na lata”, sem se preocupar se ia ou não ofender seu interlocutor. Ainda assim, em nossa casa, num bairro da zona leste paulistana, sempre havia alguém para ver a dona Jovina e suas flores, tinha mais de mil vasos espalhados pelo quintal. Não sei quantas vezes, ao chegar do colégio, ficava irritado, pois ela, entretida com suas visitas, atrasava o almoço.

Da mesma forma que amava, era capaz de ficar com raiva da pessoa. Lembro que um dia, levei um sobrinho do meu primeiro casamento até a casa dela, o Rodrigo, à época com uns 10 anos. Como ela acabara de fazer um procedimento no cabelo, que adquiriu mais de uma tonalidade, ele não teve dúvidas: “Parece o Pepeu Gomes.” Era uma constatação engraçada e inocente, mas para ela uma insolência que demorou um tempão pra esquecer e perdoar.

Aliás, por falar em esquecer, tinha uma memória de elefante. Bem no final da vida, seu organismo não produzia mais sangue, e ela passou a viver à custa de transfusões mensais. Chegou a perder a visão, mas a memória nunca. Contava histórias de sua mais tenra infância e lembrava de cor e salteado receitas de tortas e bolos, que fez ao longo da vida. Eu era seu filho preferido, imaginem se não fosse, mas minha irmã, sua maior vítima ao longo da vida, foi quem cuidou dela até os últimos segundos. Sem dúvida, uma peça, essa dona Jovina. Descanse em paz!

Manoel Dorneles

3 comentários

  1. Conta a lenda, que Cora Coralina também foi obrigada a usar um caco de prato Azul Pombinho no pescoço. Devia ser um tipo de castigo comum, nos tempos antigos. Ainda bem que minha mãe nunca o aplicou! Eu ficaria com o pescoço dolorido, com tanto colar de louça. Até hoje, sou especialista em quebrá-las! Quanto a Dona Hermínia, ouvi outro dia, numa homenagem ao Paulo Gustavo, que toda mãe tem um pouco dela. Meus filhos me acham bem parecida com a personagem… Sei lá o motivo!

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