Meus amigos urubus

O Arraial, em quase dez anos, me ensinou muitas coisas que, como um paulistano urbanoide, jamais esperaria um dia aprender. Principalmente o modo como eu encarava alguns animais. Lagartixas, por exemplo. Antes eu tinha um freio de mão puxado com elas. Aqui no Arraial descobri que onde elas aparecem, desaparecem as moscas. Hoje gosto delas porque odeio moscas.
 
Ratos e baratas também me dão nos nervos. Se bem que aqui no Arraial nunca vi ratos. Barata, às vezes e, quando aparece uma, me transformo num destemido combatente. De chinelo em punho vou atrás mesmo e não sossego enquanto não a transformo em patê. Quer dizer… desde que ela não levante voo. Porque aí, mermão, quem levanta voo sou eu!
 
Outro animal que aprendi a admirar é o urubu. Antes, em São Paulo, tinha aquela ideia de ave de mau agouro, bicho carniceiro etc etc. Perdi completamente essas impressões depois de conhecê-los melhor.
 
Lá em Porto Seguro, na Tarifa, tem aos bandos. A Tarifa em Porto é um mercado de peixes que fica à beira do Buranhém. Ali atracam os barcos pesqueiros e ali mesmo os peixes pescados são limpos e comercializados.  As tripas e os restos eles jogam em grandes latões, abaixo dos boxes onde limpam e vendem os peixes.
 
Meu… o cheiro de peixe toma conta do lugar! Claro, os urubus ficam voando em círculos acima da Tarifa, de olho nos restos que caem fora dos latões. Foi lá que eu, um dia, parei para observá-los e ficar admirado sobre o quanto essas aves voam bonito. Foi quando eu fiz a foto desta postagem e aprendi uma pá de coisas sobre elas.
 
Por exemplo: sabia que o urubu é uma ave de rapina? Pois é! Igual à águia, ao gavião, à coruja… só que com uma diferença. O urubu não caça… porque suas garras, além de não serem funcionais, são muito pequenas. É como se fossem políticos presos pela Lava-Jato: ainda têm mandado, mas não conseguem roubar.
 
Outra coisa: urubus têm os pés chatos. Por isso, não conseguem caminhar normalmente como as outras aves. Dão um ou dois passinhos e já precisam dar pequenos pulos para se deslocarem.
 
Acasalam e procriam uma vez por ano, como as hienas. A diferença é que as hienas dão risada disso. As fêmeas colocam apenas dois ovos, que são chocados pelo marido e pela esposa que se revezam nessa tarefa. Os filhotes demoram de 38 a 48 dias para dar o ar da graça e só conseguem se alimentar sozinhos depois de 12 semanas. Sorte que os urubus não têm predadores. Claro, ninguém vai se meter a besta!
 
Agora… o cara tem uma visão e olfato extraordinários! O urubu consegue enxergar um animal morto a três mil metros de altura. Mas, antes disso, ele já sentiu o cheiro, porque esses caras conseguem farejar a carniça a 50 quilômetros de distância. Pode morrer um rato lá em Santa Cruz Cabrália que o bicho, aqui no Arraial, sente o cheiro. Ele também percebe comida quando vê uma aglomeração de amigos voando em círculos lá longe.
 
O urubu é um animal extremamente arisco! Qualquer movimentação repentina e diferente, o bicho rapidinho bate as asas e vaza imediatamente. Se ele se sentir muito ameaçado, é capaz de vomitar o que comeu para ficar mais leve e fugir mais rapidamente. Eu, hein?
 
Sabia que urubus não transpiram? O que seria bom para dissipar o calor. Então ele usa uma estratégia para evitar que a temperatura do corpo suba muito: ele urina e defeca nas próprias pernas. Eles também costumam pousar, abrir as asas e ficar com o bico aberto, para perder calor.
 
Eu tentei fazer isso porque, meu… o calor aqui no Arraial e em Porto está demais. Uma média diária de 35 a 38 graus à sombra. Isso quando você encontra uma! Fiquei lá na praça dos hippies com os braços abertos e a boca também. Me puseram pra correr!
 
Outra coisa curiosa é que os urubus não vocalizam. Porque eles não têm um negocinho chamado siringe, um órgão que permite às aves cantarem. Urubus podem crocitar, que é o mesmo que grasnar… portanto jamais poderiam participar de uma banda de rock. Se bem que há bandas por aí que, longe de cantar, tenho a impressão de que os caras estão grasnando.
 
Matar ou molestar urubus é crime! Passível de Papuda sem direito a visita íntima. Porque os caras são extremamente úteis aos seres humanos. Eles se alimentam de carne em decomposição. Carniça mesmo! Isso nos livra da disseminação de doenças, porque eles limpam os locais, eliminando do meio ambiente matéria orgânica em decomposição.
 
E os caras não deixam nada! Nem as carcaças de animais mortos, matando todas as bactérias. Haja estômago para isso. Eu não tenho as manhas que os urubus têm. Outro dia abri uma lata de sardinha, meu… estava cheia de peixe morto. Eu, hein?
 
Quer saber? Os urubus têm o mais robusto sistema imunológico, com anticorpos poderosos que os livra de qualquer doença. O segredo está no suco gástrico produzido em seu estômago. Neutraliza e mata completamente bactérias, vírus e toxinas presentes na carne putrefata. Capaz até de derreter chumbo!
 
Agora o mais legal! Não há doenças que possam ser transmitidas de urubus para humanos. Enfim, como eu, aprenda a admirar e a respeitar esse incrível faxineiro da natureza. Na foto, um clique meu desses pássaros notáveis que pousaram (ops!) posaram pra mim.

Aurélio de Oliveira

3 comentários

  1. Ainda não defequei nas pernas, como os urubus, mas urinar já, algumas vezes. Principalmente quando bebo muita cerveja e não consigo chegar a tempo ao banheiro

  2. Os urubus podem até voar bonito, mas ficam devendo nos quesitos pouso e decolagem. Quando aterrissam, parece que vão virar três ou quatro cambalhotas! Acho que lhes falta elegância na frenagem. Ou melhor, acho que lhes faltam freios, mesmo!

  3. Moro perto uma avenida, em Santos, com feira-livre todos os sábados. Quando bate umas 13/13:30 horas, os urubus começam a sobrevoar a feira, que termina às 14. Ficam lá, voando com sua elegância, aguardando a hora de aterrar, ainda que meio atrapalhado, e atacar o que a dona Xepa não levou. Conversando com o responsável pela limpeza da pista., descobri que o pessoal, “dá um tempo” pros pássaros, que os ajudam limpando os restos deixados pelos feirantes. Vez por outra observo o comportamento deles, que disputam cada pedaço de comida com muito vigor. Finda a “limpeza”, saem voando cada um pro seu lado. Adoro ficar vendo-os voar, que sabem aproveitar bem as correntes de ventos para permanecerem por muito tempo sem bater asas.
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