Metralha

Entre a pré-adolescência e o início da idade adulta, meu pai me chamava de Metralha. Não que eu tivesse alguma tendência armamentista ou demonstrasse interesse em assaltar a caixa forte do Tio Patinhas – o apelido era um parâmetro adequado à velocidade com que eu falava.

Num misto de ansiedade, raciocínio veloz – com conclusões nem sempre úteis – e falta de paciência, eu falava a uma velocidade de aproximadamente quatrocentos e cinquenta disparos por minuto e, obviamente, nem sempre minha articulação oral conseguia completar inteligivelmente a estrutura das orações. Sílabas e às vezes palavras inteiras perdiam-se no emaranhado de minha dicção.

feedback mais comum nessa fase de minha vida era um irritado fala devagar! providencialmente ignorado. Não que eu não tivesse boa vontade: é que me faltava, realmente, controle da velocidade de minha recitação. Até poderia tentar – e o resultado eram duas ou três palavras em ritmo inteligível – mas meu acelerador era indomável e meu pé, pesado demais para pegar leve.

É engraçado como a gente se lembra dessas coisas, tão remotas e desinteressantes, quando se defronta com o exato contraponto: uma garotinha de dois anos que articula as palavras de uma maneira que eu, até hoje, não consigo articular. Os leitores já devem ter visto algum vídeo com Alice, uma lourinha fofa que fala oftalmologista e proparoxítona com mais facilidade com que que eu, na mesma idade ou mesmo um ou dois anos mais velho, pronunciava meu próprio nome.

Hoje, aos 65, eu consigo falar oftalmologista, tiranossauro rex, propositalmente e proparoxítona quase tão bem quanto ela. Se fosse na minha época de Metralha, entretanto, teríamos uma mistura de otalmlgsft, propostmdgt e fala devagar a cada cinco ou dez minutos!

Para minha sorte, não existia YouTube naquela época.

Marco Antonio Zanfra