Mensagens do Além

Conheci um cara em Blumenau, há alguns anos, que foi responsável por algumas dezenas de casamentos durante a vida.

Dono de uma espécie de agência de encontros – precursora caipira de aplicativos como o Tinder – ele praticamente cuidava de tudo: promovia a reunião entre os interessados em arrumar sarna para se coçar, aconselhava o casal durante o namoro, marcava as datas, organizava as despedidas de solteiro, decorava a capela para a cerimônia, cuidava da recepção aos noivos, planejava viagens e hospedagens da lua de mel…

… e ainda respondia pela cobertura fotográfica e pela publicação de texto e imagens do enlace na coluna social de um jornal da cidade.

E, no entanto, ele nunca se casou.

Era o exemplo cuspido e escarrado do dito (adaptado) faça o que eu digo – ou o que eu promovo – mas não espere que eu também o faça.

É mais ou menos a mesma coisa que você passar a vida como receptáculo de mensagens do Além e, depois de morrer, não dar a mínima para quem espera uma mensagem sua.

Se os queridos leitores já desconfiaram, confirmo: estou falando de Chico Xavier, sim. Nada contra ele pessoalmente, contra sua vida de bondades, a fé que ele compartilhou e que fez bem a tantas pessoas, mas por que, nos vinte anos em que está do outro lado do balcão, ele não deu um pio?

Li outro dia que o médium deixou com três pessoas de sua confiança uma espécie de ‘password’ para identificar sem sombra de dúvida mensagens psicografadas que poderiam ser atribuídas a ele. Era uma espécie de chancela para desacreditar impostores: não houvesse a senha, não era certamente um produto legítimo da grife Chico Xavier.

Duas dessas pessoas já foram juntar-se a ele. Resta apenas um dentista, que foi entrevistado e disse que, nos vinte anos da morte do médium – comemorados estes dias – Chico Xavier não mandou uma linha. Ele, que lançou mais de quatrocentos livros servindo de, desculpem o trocadilho, ‘ghost writer’ de autores mortos, não disse um A. Até já apresentaram mensagens atribuídas a ele, segundo o dentista, mas nenhuma trazia o código secreto.

Repito: não duvido das intenções dele, de sua fé, de sua crença, de sua positiva mediação como mensageiro de bons fluidos, mas esse silêncio estarrece. Renega tudo o que ele sempre professou em vida. Será que Chico Xavier foi, durante esses anos todos e sem que ninguém comprovasse nada contra ele, simplesmente uma farsa?

Ou será que, como muitos de nós, esqueceu a senha?

Marco Antonio Zanfra

4 comentários

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  1. Bom dia vizinho,
    Quanto a sua dúvida, creio eu, que se “ele” não se manifestou ainda, talvez seja porque esteja a espera da pessoa certa ou da mais coerente com seus valores e princípios.
    Pois infelizmente, sabemos que muitos venderiam a alma para se aproveitar da situação e lucrar com mensagens atribuídas a essa figura tão importante que nos foi o Chico Xavier.

    Gratidão pela reflexão do dia!
    Mara Fazenda