Medos

Quando oito em dez brasileiros consideram que a epidemia está fora de controle, penso que chegou a hora de repensarmos nossos medos. Superlativá-los, quero dizer. Do medo de até então, passaremos, diante das circunstâncias, a sentir pavor, fobia, paúra, terror, desespero, horror, pânico…

Sim, é bem por aí! Pode parecer meio alarmista, mas nós, seres pensantes que já estávamos preocupados com as consequências funestas do vírus desde o início da quarentena, o que pensar agora que a paranoia cresceu a ponto de atingir as massas ignaras?

A devastação se torna praticamente completa se pensarmos pragmaticamente. A conclusão é que toda a população – pelo menos a população que tem consciência – está alvoroçada, já que os vinte por cento restantes, como todos estamos cansados de saber, não respondem satisfatoriamente quando se trata da conectar dois ou mais neurônios.

Temos ciência de que todos nós vamos morrer um dia – como nos lembrou há algum tempo aquele grande pensador nefando que senta a bunda no Planalto – mas, no ponto em que chegamos, a impressão é que o ‘um dia’ está logo ali, na próxima esquina. A gente cansou de ver pessoas, que até então esbanjavam saúde, ir-se de repente, mendigando um restinho de oxigênio na atmosfera inóspita… por que não nós?

O medo é inerente ao ser humano. “Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal, e isso não se refere a coragem”, escreveu Jean-Paul Sartre – que, aliás, tinha medo dos habitantes do mar e achava que um polvo gigantesco iria arrebatá-lo, caso entrasse na água com Simone de Beauvoir para pular umas ondinhas. “O medo é o pai da moralidade”, acrescentou Friedrich Nietzsche.

“E fomos educados para o medo/Cheiramos flores de medo/Vestimos panos de medo/De medo, vermelhos rios vadeamos”, poetizou Drummond. “O horror visível tem menos poder sobre a alma do que o horror imaginado”, adiantou-se Shakespeare, num retrato muito próximo do temor que parece nos atingir hoje. “As coisas que nos assustam são em maior número do que as que efetivamente fazem mal, e afligimo-nos mais pelas aparências do que pelos fatos”, ecoou Sêneca.

Em cima do que elaboraram Shakespeare e Sêneca, podemos induzir que, embora não enxerguemos os vírus a olho nu, eles não são as aparências ou o horror imaginado. São invisíveis, mas reais. Mas isso não quer dizer que estejamos livres dos outros medos, os imaginários, os irreais, os fantásticos, os irracionais. Continuamos tendo medo de altura, de escuro, de olhar embaixo da cama, de passar debaixo da escada, de cruzar com gato preto…

Alguns de nós, aliás, temos fobias estranhas, como Virgínia Woolf, que temia o canto dos pássaros, ou Pitágoras, que atribuía poderes antropomórficos a um feijão que ficasse enterrado durante vinte dias. Outros receberam de presente esquisitices mais prosaicas, como Dostoiévski, que tinha medo de escuro, Balzac, que sofria de delírios persecutórios, e Kant, que era hipocondríaco.

Quanto a mim, não tenho propriamente medos, mas ‘impressões ruins’. Uma delas é fazer um ecocardiograma e ouvir o som de meu coração, que trabalha ininterruptamente há quase sessenta e cinco anos, com a terrível expectativa de que aquele chuga-chuga pode parar dali a um segundo. Outra é, durante o barbear, passar a lâmina no pescoço para cortar os pelos e sentir a iminência de seccionar a carótida e perder sangue tão rapidamente que nem teria tempo de passar a loção hidratante pós-barba.

Reais ou imaginários, senhoras e senhores, somos escravos de nossos medos.

Marco Antonio Zanfra

2 comentários

  1. Danusa Daniela Danusa
    Danusa Daniela Danusa

    Na democracia ineficiente os medos operam em favor dos outros que, diferente de nós, controlam a nossa vida pública e particular, de forma estrutural e invisível nos empurrando a cada dia mais para a beira do precipício, e ainda, no percurso deste trajeto, controlam também o nosso AR. Eu, particularmente, desenvolvi pânico por aquele que nem ouso nomear, que se diz Patriota, tremula nossa Bandeira, e se diz justo com o povo: (como todo o cidadão de bem) e que dispõe de um cedro com o poder da caneta azul… que demonstra aversão aos pobres, negros, indígenas, mulheres…

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