Manias 

Quero começar esta crônica com Sérgio Chapelin.

Entram os acordes de “Freedom of Expression” da famosa desconhecida banda “The J. B. Pickers” e uma computação gráfica formando o logotipo do Globo Repórter. Entra o Chapelin fazendo suas mãos dançarem no ar, literalmente …

“Manias… por que as temos? Como aparecem? Quando se manifestam? Quem são essas pessoas que adquirem os hábitos mais estranhos? No próximo segmento, você vai conhecer o caso do enfermeiro aposentado Juvenal que ganhou, entre os mais chegados, o apelido de Juvenalça, porque tinha a estranha mania (e prazer) de ir a final de velórios apenas para ajudar a carregar o caixão até o local do enterro.”

Obrigado, Chapelin… eu assumo a partir daqui.

Mas que lúgubre fascínio ou mórbido prazer Juvenalça sentia ao carregar um féretro? Que estranha compulsão era aquela? Como começou? Bem, essa mania começou no dia em que ele carregara o caixão com o corpo da sua mulher, dona Helga, que o fizera comer o pão que o diabo amassou… aquela cobra! Que Deus a tenha por que o diabo não aguentaria! Começou a sentir um repentino deleite, uma subterrânea euforia… porque Juvenal, já sabia ele, não estava carregando apenas um caixão, mas o símbolo pétreo (ou cárneo) de sua liberdade e, finalmente, de sua paz. Já via seus pés sobre a mesinha de centro, a cervejinha quando quisesse, uma dosezinha de conhaque misturada com café… tudo sem aquelas tempestades domésticas provocadas por aquela cobr… ex-rainha do lar, pra não dizer mandona. Juvenal ajudou a carregar o caixão da esposa com semblante triste… por fora! Porque por dentro estava radiante! Mas tinha de manter as aparências…

― Meus pêsames, Juva… coitadinha!

― Pois é… que se há de fazer…

Algum tempo depois, Juvenal soube da morte de um velho amigo! Foi ao velório logo de manhã para se despedir e, na hora do enterro, ajudou a carregar o caixão. Ao ajudar a levantar o esquife, agarrado a uma das alças, Juvenal sentiu uma espécie de êxtase… um súbito espasmo de prazer, como se fosse um orgasmo fugidio. Descobriu, naquele momento, que estava sentindo o mesmo arrebatamento que sentiu no enterro daquela cobr… sua mulher!  Percebeu que estava reciclando todo o prazer que sentira ao carregar o caixão da esposa.

Feitas as últimas exéquias ao amigo, Juvenal saiu do cemitério com uma estranha sensação de felicidade. Sim senhor, uma sensação indescritível! Foi como se tivesse experimentado uma droga alucinógena pela segunda vez e agora, viciado, queria mais!

Assim, passou a frequentar, com volúpia, o obituário do jornal da cidade e, aleatoriamente, escolhia um defunto. Anotava o horário e sempre chegava uma ou duas horas antes do enterro. Entrava na câmara ardente com uma expressão compungida por fora e uma enorme euforia por dentro… como um viciado preparando a seringa e a colher. Ninguém estranhava aquela figura de terno e gravata, até porque um velório é um evento dos mais democráticos e permissivos. Não é como um casamento, por exemplo, em que sempre tem alguém que, desconfiado, pergunta:

― O senhor é parente do noivo ou da noiva?

― Eu sou o noivo! Ora, francamente…

Essa situação jamais aconteceria num velório e Juvenalça sabia disso e sentia-se tranquilo. Mas sempre tem um curioso de plantão:

― O senhor conhecia o falecido?

― Oh, sim, sim… ― respondia Juvenalça balançando a cabeça tristemente ― um grande amigo dos velhos tempos. Ainda esta semana conversamos…

― Mas o doutor Valdemar estava em coma há mais de um mês…

Juvenalça não caia do tipo. Depois de muitos velórios, adquiriu uma espécie de criatividade compulsiva:

― Vejo que o senhor não conhece o tema Projeção do Corpo Astral e Projeciologia, do qual sou um perito. Mantinha seguidos contatos com o Vardema em coma…

― Com quem?

― Com o Vardema… era como eu chamava o Valdemar nos velhos tempos!

― Ah, sim…

E Juvenalça, rapidinho, ia para a beira do caixão com o ar compungido… “grande Vardema!”. Na hora de fechar o caixão, Juvenalça já agarrava uma das alças e não permitia que ninguém fizesse isso em seu lugar. “Essa alça é minha, ninguém tasca!” e lá ia ele, carregando o féretro e sentindo todos os prazeres que aquela “droga” lhe proporcionava.

Mas um belo dia, que sempre os há (adoro essa expressão!), Juvenalça dormiu no ponto, ou melhor… cochilou num dos cantos do velório e acordou com a choradeira dos parentes do defunto quando já estavam colocando a tampa. Levantou num pulo e foi pra beira do caixão na ânsia de agarrar uma das alças.

Oh, miséria! Oh, desgraça! Todas as alças já estavam ocupadas! E aquele grupo de seis pessoas saiu com o caixão da câmara ardente em direção dos túmulos, acompanhadas de carpideiras que iam pranteando o morto.

Juvenalça foi atrás, também se lamentando. Mas não pelo morto… simplesmente porque ninguém cedeu uma alça pra ele.

― O senhor não gostaria que eu carregasse um pouco? Deve estar cansado…

― Não, obrigado… vou acompanhar meu irmão até o fim!

Juvenalça não desistiu! Ia rodeando o pequeno grupo de carregadores pedindo pra um, pedindo pra outro…

― Posso ajudar? Talvez…

― Não, obrigado! Eu levo meu primo… pode deixar!

Depois de muito insistir, Juvenalça foi, aos poucos, ficando para trás… ninguém cedeu uma mísera alça daquele mísero caixão pra ele. Foi andando mais devagar até que parou de vez e ficou olhando aquelas pessoas se afastarem com o caixão. Não podia acreditar! O terno, a gravata e até flores ele levara… tudo em vão! Isso nunca acontecera antes e pior… começaram uns relâmpagos, trovões e uma chuva forte!

Como um viciado impedido de se drogar, Juvenalça, com toda a força de seus pulmões, com toda a raiva que estava sentindo por aquela abstinência, ensopado pela chuva, gritou para o grupo e o caixão que já iam a uma certa distância:

― EI, VOCÊS AÍ DO CAIXÃO!!!

O grupo, pego de surpresa, parou e virou-se em direção do Juvenalça.

― ENFIA ESSE DEFUNTO NO…

Um repentino e ensurdecedor trovão ecoou encobrindo a voz de Juvenalça. Até porque esta é uma crônica de respeito…

Aurélio de Oliveira

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