Loucura pouca é bobagem

Disse um cara que conheço: “Só vem para o Tocantins quem é louco ou veio à força.”

“Pôxa, não vim forçada nem sou louca!”

“Então, por que veio?”

“Minha avó me chamou. Só que ela morreu há 21 anos.”

“Taí a prova: você faz parte do time dos loucos!”

Não, não sou louca por ter mudado para o Tocantins, atendendo ao chamado de minha avó. Acontece que, em 2006, minha mãe foi convidada para o 2º Salão do Livro do Tocantins, onde minha avó seria homenageada.

Voltou para casa, falando maravilhas de Palmas: “É uma cidade com muito espaço para crescer, faz sol o ano inteiro. Tem até praia!”

Em São Paulo, não conseguia emprego e só fazia bicos. Segundo o editor de um grande jornal, não queriam mais pessoas experientes, só menininhas “comíveis”. Uau!!!!

Palmas era tudo o que eu sonhava para mim e para meu filho, então com 14 anos: cidade jovem (17 anos), estado criado pela Constituição de 88, falta de profissionais experientes no mercado e… sol e praia o ano todo!!!

Minha mãe havia levado um exemplar do único jornal diário do estado, no qual saiu na capa. Então, mandei meu currículo para o editor. Ele respondeu que, realmente, precisavam de gente com experiência, mas só contratavam se a pessoa estivesse estabelecida no Tocantins.

Por insistência da minha mãe, e bancada por ela, comprei uma passagem para Palmas. Iria numa segunda-feira e voltaria na sexta-feira. Deixei meu filho com uma amiga, ele então com 14 anos e terminando o ensino básico, e viajei para Palmas.

Era início de julho, no Tocantins, em plena “Temporada de Praia”. Governo, Assembleia, Câmara, restaurantes, lojas, todo mundo em “recesso”, como dizem por aqui.

Um mês em que não se decide nada. Ainda assim, saí do hotel logo cedo e fui até o jornal. Ao ver o céu azul (como não se tem em São Paulo), as muitas árvores e jardins, dezenas de pássaros, resolvi que não iria mais embora.

No jornal, a primeira dificuldade. Não havia vaga, iam negociar com Goiânia (sede da empresa), para ver se criavam uma. Passei no shopping, numa lanhouse, mudei a passagem de volta para 30 de dezembro. No hotel, liguei para uma conhecida da minha irmã e ela me “adotou”, me apresentando a muitas pessoas importantes e ao dono do semanário, onde trabalhava. 

Vivi dias de grande incerteza, em relação ao futuro. Ouvi muitos “nãos” ou “espere até agosto”.

Quando agosto chegou, graças ao conhecimento e aos contatos da minha nova amiga, as portas se abriram e comecei a trabalhar na Câmara de Palmas e no jornal diário. Em dezembro, fui buscar meu filho, minha cachorra e meus dois gatos e dirigi 1.860 quilômetros, até a casa onde moro há 15 anos. E, quando embiquei o carro no portão da garagem, liguei para minha mãe, chorando, para contar que tínhamos chegado bem. Do outro lado da linha, minha mãe, sempre tão controlada e fria, também chorava…

Nossas lágrimas eram de alívio. Com 51 anos, só tendo viajado apenas para a praia, a 60 quilômetros de São Paulo, atravessei três estados e o Distrito Federal, num carro sem a documentação em ordem e com a carteira de habilitação vencida, transportando um adolescente de 14 anos, uma cachorra enorme e dois gatos.

É, talvez eu faça mesmo parte do time dos loucos.

Célia Bretas Tahan

3 comentários

  1. E você ainda tinha dúvida se era do time dos loucos? É só lembrar que deu sua Brasília na mão de um bêbado, para que ele circulasse com ela durante o fim de semana. Essa sua disposição funciona como uma espécie de atestado de maus antecedentes. Aqui em casa, minha mulher só te conhece como a ‘Célia louca que emprestou a Brasília aquela vez’!

    • Loucura teria sido não dar a um grande amigo e sua família a possibilidade de ter um carro passear, nem que fosse só num fim de semana! E era só um carro, roubado anos depois… A amizade dura até hoje!!!

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