Loucura não tem preço, só valor

Na década de 1970, quando comecei no Jornalismo, na Revisão da Folha, arrumei três amigos. E nos tornamos inseparáveis. Fizemos muitas loucuras juntos, mas todas saudáveis, do tipo que não prejudica ninguém, como roubar pão e leite, na porta das mansões do Morumbi (bairro nobre de São Paulo), durante a madrugada.

Ou ir para um bar, na esquina da Avenida São João com a Duque de Caxias, ligar a caixa de música – daquelas que funcionavam com moedas – e dançar no meio da calçada, em plena madrugada. Depois, voltar ao trabalho, cantando, alegremente: “Bebo, sim, estou vivendo; tem gente que não bebe e está morrendo; eu bebo, sim…”

Da Isabel, nunca mais tive notícias. O Tó mudou para a Costa Rica e se transformou num magnata das comunicações. Algumas poucas e raras vezes, nos falamos pelo Facebook.

O Zanfra se tornou um escritor de sucesso, com quatro livros publicados. É com ele que tenho contato quase sempre. Dias desses, me lembrou de uma “loucura” que fiz, quando trabalhávamos juntos.

Alcoólatra, o futuro escritor tomava duas garrafas de cerveja, no boteco do lado do jornal, antes de entrar para o trabalho. Subia, pegava a pauta (orientação sobre a matéria a ser feita), voltava ao boteco e emborcava mais umas duas garrafas. Cumpria a pauta e, antes de voltar a redação, para escrever o texto, mandava ver mais uma ou duas garrafas.

Pensa num cara que, mesmo bêbado, escrevia bem!!!

Depois de fechar o jornal, eu o acompanhava no boteco e nas cervejas.

Certa feita, me contou que queria passear com as filhas e com a esposa, no fim de semana, mas, sem carro, tudo ficava difícil. Proprietária de uma Brasília verde abacate, não tive dúvidas em emprestá-la ao meu companheiro de bebedeira.

Anos depois, ele parou de beber, mudou para o Sul, e eu, para o Norte. Até hoje,

sua esposa me conhece como a louca que lhe emprestou o carro.

Gente, era só um carro! E foi roubado, anos depois. Já a amizade, existe até hoje. Única amizade sólida, dos meus tempos de Revisão da Folha!

Célia Bretas Tahan

3 comentários

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  1. O Zanfra não era único pé de cana naquela Agência Folhas. Tivesse um bafômetro na porta do prédio, não entrava um

  2. Também fui revisor da Folha no final dos anos 70. Mas naquela época eu já não bebia mais… nem menos. Era sempre a mesma quantidade!