Lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé

Impossível ler o texto do Chico Lelis sobre o sapato que fazia caminhos tortuosos nos pés de seu dono e não me lembrar de um caso que aconteceu comigo. Não que tenha envolvido um par de mocassins com vida própria, mas apenas uma dessas pequenas peças que o cotidiano nos prega. E que pode acontecer a qualquer um, por bem ou por mal, como veremos no decorrer do texto.

Faz um tempinho já, coisa de mais de dez anos, quando eu era assessor de imprensa do Detran de Santa Catarina: um belo dia, fui trabalhar com um sapato diferente em cada pé.

Não, não foi nenhum sintoma de demência precoce ou de disfunção neurológica, acho. Foi apenas uma distração. Estava escuro ao me vestir e acabei confundindo os sapatos – embora, felizmente, não tenha colocado dois pés esquerdos. Levei quase duas horas para perceber o engano, ao notar que um pé pisava diferente do outro.

E o que é que os meus seletos e ocupados leitores têm a ver com isso?

O que eu quero ponderar é que, apesar de errada, atrapalhada e cômica, a decisão de calçar sapatos diferentes partiu de mim. Errei, é certo, mas não fui coagido a isso, não fui induzido a erro por forças ocultas, não tive a decisão de calçar o sapato certo desobedecida e contrariada por quem quer que seja. Não foi, digamos, meu pé direito quem se rebelou, quis usar um sapato diferente de seu colega do outro lado e me obrigou a aceitar sua decisão soberana. Ou, melhor ainda: tomou sua decisão soberana, e eu só fui saber dela quase duas horas depois.

Onde quero chegar?

Quero chegar no seguinte ponto: estou reforçando a ideia de autonomia de minha parte para o lapso porque usar os dois sapatos diferentes poderia ter sido uma decisão além de mim. Embora pareça estapafúrdia a possibilidade de meu pé direito tomar suas próprias decisões e me fazer passar vergonha, essa hipótese é perfeitamente factível. Isso pode acontecer por causa de uma disfunção cerebral chamada Síndrome da Mão Alheia. A síndrome ocorre quando é interrompida a conexão entre os dois hemisférios do cérebro e eles acabam agindo autonomamente.

Alguns exemplos desse comportamento: você começar a ser estapeado pela própria mão, você querer seguir para um lado e uma das pernas decidir ir para o outro, ou – um exemplo citado num documentário exibido pela BBC – sua mão direita abotoar sua camisa e a mão esquerda desabotoá-la em seguida. Isso, é claro, sem o seu consentimento.

O problema ocorre porque se rompe a hierarquia dentro da estrutura cerebral. O hemisfério esquerdo do cérebro, que controla o braço e a perna direitos, tende a ser onde residem as habilidades linguísticas. O hemisfério direito, que controla o braço e a perna esquerdos, é mais responsável pela localização espacial e pelo reconhecimento de padrões. Normalmente, é o hemisfério esquerdo, mais analítico, quem domina e tem a palavra final nas ações que desempenhamos. Rompida a ligação entre os hemisférios, quem pode garantir de onde partirá a palavra final?

Para o neurologista Roger Sperry, cada hemisfério cerebral é um sistema de consciência isolado – percebendo, pensando, lembrando, raciocinando, querendo e se emocionando por conta própria. Quando ligados, prevalece a hierarquia de poder.

Quando desligados, não será impossível alguém sair com um sapato enfiado na boca.

Marco Antonio Zanfra