In dubio…

Tive um sonho. Ou melhor, um pesadelo. Talvez por causa dessa indefinição sombria de nosso presente/futuro político, onde proliferam obscurantismos e retrocessos, foi um sonho muito vívido.

Mas, voltando à linha principal da narrativa, tive um pesadelo. Nele, nós estávamos outra vez às voltas com um governo ditatorial e eu era editor de um jornal de resistência, tipo MovimentoEx, Opinião e outros nanicos de orgulhosa lembrança. Não me lembro do nome do jornal, mas a redação era do tipo jurássica. Não havia computadores. Apenas máquinas de escrever enferrujadas e barulhentas. Não me espantaria se a composição fosse a chumbo quente.

Como era praxe na ditadura anterior – a real, com duração de 21 anos e longo pesadelo de muitos – o jornal vivia sob o jugo da censura. Censura prévia. A redação tinha três jornalistas e dois censores, mas nossa primazia não nos orgulhava. Pelo contrário. Dificultava o trabalho. Como o Estadão de antigamente, a gente às vezes era obrigado a substituir textos de matérias por receitas de bolo ou trechos de Os Lusíadas.

Podíamos fazer alguma coisa para combater a intromissão deletéria do departamento de censura? Não, é claro. Como na ditadura real, também no sonho/pesadelo estávamos de mãos atadas. Mas, se não podíamos lutar contra eles, podíamos pelo menos fazê-los trabalhar! Querem ler nossos textos? Pois vão ter de percorrer páginas e mais páginas de dicionários se quiserem entender a escrita. Podem censurar, mas com conhecimento de causa.

E então passamos a usar venusto em lugar de bonito, tebaida no lugar de solidão, farpela em vez de traje, uxoricídio em lugar de assassinato da mulher pelo marido, multifário como variado, alóctone em vez de estrangeiro…

Era divertido. Passávamos horas nos dicionários procurando as palavras… mas eles teriam de passar também! Anspeçada (eles deviam entender disso!), epitalâmio, piogênico, bufarinha, ovençal, atossicar, remocar (eles deviam entender disso também!)… Quer censurar? Tudo bem, mas sabendo a razão do corte. Abnóxio, grazina, zafimeiro, mesto, esputação…

Coincidência ou não, todas as matérias com as ‘escavações vocabulares’ passaram incólumes pelo crivo dos censores. A caneta vermelha economizava tinta. Por ser tão divertido e inimputável, resolvi ousar um pouco mais. Resolvi escrever um editorial recheado de palavras garimpadas nos alfarrábios. Um verdadeiro exercício de arqueologia…

“Sem mais prolegômenos, é preciso colocar termo à protérvia da autocracia plúmbea. É improtelável pôr fim à sujeição da chusma, cujo bambaré se faz ouvir ao abscôndito, malgrado sua iscnofonia. Temos parecença com um alvanéu soerguendo uma quadrela alcachinada, sem um pertuito para a cordura, acoimando ao ergástulo a contradita. Chega de zumbrir-se! Temos de reaquistar as anteguardas granjeadas e indigitar aos símios antropoides o carreadouro de retrogressão à caserna! Chega de involução! Chega de inscícia!”

A redação final alvoroçou-me! Resolvi ser mais ousado, ou desfaçado, ou animoso, ou intimorato, e botei algumas palavrinhas de minha própria lavra. Lemorrento, subsoluciático, intrejocástico, pubicalvênico, madrolenianfíboto e, chave de ouro, jieste!

No dia seguinte, percebi ser ousado em demasia por ter colocado no editorial o autoexplicativo título BASTA!!! – assim mesmo, com caixa alta e três exclamações. Percebi, tarde demais e não por epifania, mas pelo fato de a redação estar cercada por pequena multidão e dois carros dos bombeiros. Lá dentro, o caos.

Quatro mesas reviradas com as pernas para o ar, duas Olivetti ainda soltando fumacinha, uma garrafa térmica retorcida, um rádio a válvula desencaixotado, centenas de folhas de papel espalhadas e pisoteadas, um vasinho com galhos de arruda agonizando na porta do banheiro…

A ignorância responde com violência, lembrei-me tardiamente! Iam gastar tempo procurando as palavras no dicionário se podiam inferir pelo título o teor do texto? O recado mais claro deixado por eles, pintado na parede em letras garrafais, também estava em caixa alta, também tinha três exclamações e, misturando termos em latim com o português mais varzeano, também vasculhava superficialmente o dicionário.

Temos de reconhecer, porém. IN DUBIO, PAU NO RÉU!!! ganhava de goleada de meu editorial, em termos de passar o recado. 

OBS: Texto desafio sem o uso da palavra “Que” ou dois pontos.

Marco Antonio Zanfra

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