Gafanhotos

Falam em quarenta milhões de gafanhotos prestes a invadir o Rio Grande Sul – como fizeram as tropas do general Estigarribia, em 1865 – e eu fico pensando como certas espécies conseguem ser tão gregárias. Claro que um objetivo comum ajuda, ainda que não seja dos mais nobres, como destruir plantações, mas não deve ser fácil orientar um grupo tão grande para ações tão bem coordenadas, como um flash mob exaustivamente ensaiado.

Só para comparar: um diretor de bateria de uma escola de samba tem menos de trezentos ritmistas sob seu comando e não consegue evitar que uma ou outra cuíca cante esganiçada ou que alguns tamborins repiquem fora do tempo. A constatação possível é que o ser humano comum não é muito chegado a ações coordenadas, e a escola de samba é apenas um dos incontáveis exemplos ilustrativos.

Parece que o que atrapalha é o cérebro. As espécies gregárias – como os gafanhotos, as formigas e as abelhas – têm pouca ou nenhuma atividade cerebral. Algum dispositivo que eu não sei qual as orienta a cumprir a função à qual estão destinadas no contexto geral da massa. Não vi nenhum desses animais com uma senha na mão, um crachá, um manual de instruções ou uma pulseira colorida. Logo, seu conceito de mãos-à-obra não deve ser ligado a nenhuma atividade cognitiva.

Já o ser humano… Tirando os hunos, os ostrogodos e as torcidas organizadas – que parecem ser comandadas por um gatilho chamado fé-cega – os seres humanos não se reúnem em grande número e com um objetivo comum nem para dizimar milharais ou invadir a cozinha lá de casa, em fila indiana, atrás de fragmentos alimentares para nutrir a rainha. Isso eles deixam para os gafanhotos e as formigas, seres em estágio superior de desenvolvimento social.

Mas já pensou em reunir quarenta milhões de humanos – um quinto da população brasileira – para construir hospitais, despoluir a águas, recolher as centenas de milhões de garrafas PET espalhadas pelo planeta, desassorear os córregos, construir escolas, produzir benemerência aos menos assistidos, erguer creches, distribuir agasalhos a moradores de rua, tornar o mundo mais humano e justo?

Tá, concordo, é muito sessão da tarde, desenho animado da Disney, campanha da fraternidade…

Então, tornando a proposta mais próxima da realidade, que tal pegar esses quarenta milhões, distribuídos igualmente pelas cidades com maior taxa de contaminação pelo coronavírus, e convencê-los a não ir a shoppings centers, não frequentar bares, não se acotovelar pelos calçadões comerciais, deixar para cuidar das unhas e dos cabelos mais tarde, usar todos os equipamentos individuais de proteção, deixar de se aglomerar em praias e praças, pensar um pouco na saúde da população como um todo? Resumindo: ficar em casa, em isolamento social, até baixar efetivamente a curva do contágio.

Parece mais fácil colocar máscaras faciais em cada um dos membros da nuvem de gafanhotos…   

Marco Antonio Zanfra