Fábula revisitada

Sou obrigado a conviver aqui em casa com uma numerosa e eficiente colônia de pequenas formigas. Eficiente porque não são necessários mais do que dois minutos para que elas se acerquem de um único e solitário grão de arroz inadvertidamente abandonado sobre a pia; numerosa porque vocês não fazem ideia de quantos elementos cercam com suas patinhas tremelicantes aquele único grão de arroz abandonado à própria sorte.

Elas devem ter lá suas razões para tamanho empenho: devem servir a uma liderança cruel – populista, mas cruel – que exige de cento e vinte a cento e cinquenta por cento de dedicação à causa, seja ela qual for; têm no formigueiro um centro de armazenamento e distribuição superdimensionado, que deve ser abastecido continuamente, para que pareça menos superdimensionado; têm um sistema de cotas a serem cumpridas em sua lida diária, com direito a foto de ‘funcionário do mês’ na área do cafezinho; são, afinal, formigas, e é isso que as formigas fazem!

Aliás, quem sou eu para entender e discutir a estrutura social das formigas? Sei pouco sobre elas, apenas que parte de sua população mundial mora lá em casa. Enciclopedicamente, sei que é uma sociedade de castas; duas, para ser mais exato: a rainha e o resto. A líder passa a vida pondo ovos e é, portanto, a mãe de todo o formigueiro, uma espécie de rainha Elizabeth com seis pernas e menos laquê no cabelo.

Mas eu venho notando que, iniciado o outono, a quantidade de formigas que me visita regularmente vem diminuindo. Não sei se é porque é um período de férias delas, ou se é porque a temperatura vem caindo e elas não têm agasalhos suficientes para a colônia toda. Só sei que o termômetro vem baixando e vem rareando a frequência com que elas aparecem, cada vez em menor número. Quando chegarmos ao inverno pleno, creio que vou ter a impressão de que as formigas me abandonaram de vez.

E é aí que eu chego à fábula citada no título. Fico imaginando se as formiguinhas passaram todo esse tempo passeando por minha casa para encher de provisões o centro de armazenamento superdimensionado e terem o que comer no inverno – e para alimentarem a rainha, claro – e se uma cigarra faminta vai passar por lá pedindo um prato de comida, depois de ter gastado o verão na cantoria, sem pensar na possibilidade de passar fome no frio.

Faz muito tempo que não ouço cigarras por aqui. Não sei se é efeito do isolamento social ou se elas descobriram que o setor artístico não tem futuro nas atuais circunstâncias políticas. Por isso, não acredito que as formigas aceitem o argumento de que ela passou o verão cantando e não teve tempo de armazenar víveres. Melhor, por exemplo, é ela dizer-se vítima dos efeitos da pandemia e alegar que, como artista, está aguardando ajuda financeira do governo federal, nos termos da Lei Aldir Blanc, e poderá em breve ressarcir o formigueiro pelo repasto.

De qualquer forma, a cigarra vai precisar contar com a benemerência formigal para sobreviver: auxílio emergencial e Pátria Solidária não preveem socorro aos membros do meio artístico. E a Lei Rouanet está cada vez mais distante de quem não comunga com a cartilha da direita.

Marco Antonio Zanfra

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