Enquanto isso na academia

Esses dias eu fui a uma academia que tem aqui em Arraial da Ajuda. Voltei de lá precisando exatamente disso: de ajuda! Quebrado, com dores no corpo todo… doía até a carteira de identidade. Só não me doía o cadarço do tênis… e olha que eu só fui lá perguntar o preço!

Quem me atendeu foi um rapaz do tipo… digamos, extraforte. O uniforme dele de treinador já trazia indícios de que uma briga com ele duraria apenas um gemido do oponente.

No calção dele, apertando coxas mais largas que meu tórax, tinha uma etiqueta com os dados: CONTÉM ESTERÓIDES, COMPLEXOS VITAMÍNICOS DE A a Z, AREIA, CIMENTO E ENTULHOS DIVERSOS. NÃO CONTÉM GLÚTEN, MAS CONTÉM GLÚTEOS.

Meu… e que glúteos! A bunda do cara parecia a traseira do Tempra. Lembra do Fiat Tempra? Com aquele porta-malas que daria pra fazer um quarto e cozinha e, se bobeasse, um puxadinho. E a camiseta da fera, então… a etiqueta me lembrou um gago pedindo um gelinho pro whisky: GêGêGê… acho que o café da manhã dele deve ser à base de sucrilhos com limalhas de ferro!

Eu já senti o drama quando o cara me cumprimentou. Antes que eu fizesse qualquer gesto, ele agarrou minha mão como um chinês agarraria um morcego e apertou:

— Prazer, “seu” Orélio, Macadame ao seu dispor! Pode me chamar de Maca…

Senti minha mão como se estivesse sendo apertada numa morsa. Quando ele a soltou fui conferir os dedos… foi difícil contar! Ficou tudo engruvinhado… minha mão parecia mais um pé de frango, solto numa canja.

Ele disse Maca? Esperava “Thanos”, “Ciclope” ou… vá lá, Golias!

— O que o senhor gostaria de fazer… —  disse ele esmurrando a palma da própria mão. Parecia um bate-estaca numa tampa de bueiro.

— Morrer…

— COMO???

— Correr, correr… —  respondi rapidamente, decidindo que não seria bom fazer piadinhas com um cara com um peitoril daquele tamanho e com braços e pernas que, cortados, daria pra abrir um açougue.

— Não temos pista de Cooper, doutor… mas temos esteiras! —  disse apontando pra uma esteira sendo usada por uma senhorinha, talvez da minha idade.

Olhei pra esteira e a velha, suada e resfolegando, estava diminuindo a velocidade, querendo sair…

— MANDEI PARAR, DONA NAIR??? MANDEI? —  berrou ele indo até uma prateleira.

A dona Nair, tadinha, com um olhar de quem está no corredor da morte, rapidamente voltou a apertar os botões colocando mais velocidade do que antes.

Foi aí que eu olhei para os outros aparelhos… meu, aquela academia parecia mais um centro geriátrico ou um salão de bingo. Velhos e velhas, um em cada aparelho que, com o berro do treinador, pararam de enrolar e voltaram para os exercícios com mais boa vontade, porque senão… 

Depois soube que Maca não era o apelido de Macadame… mas uma sinistra sugestão de como os velhos saiam da academia. Em cima de uma!

Macadame veio voltando com uma prancheta… foi aí que deu pra olhar melhor o cara. Cabelo escovinha, barba por fazer, não achei o pescoço, mas vi um monte de tatuagens. Coisas como o Monte Vesúvio e outras que não entendi. Vi também um singelo raminho de arruda atrás da orelha esquerda. Achei simpático esse gesto. Mas depois vi que ele não colocara o raminho. Nasceu ali!

Disse-me ele que a academia estava com um programa especial para pessoas que estavam chegando à terceira idade. Bom, pensei, com ele como treinador, se chegassem ao fim do mês já estaria de bom tamanho!

— Quantos anos, “seu” Orélio?

— Um monte… ah, sim, 70!

— Quantos quilos?

— Todos!

— Gosta duma gracinha, né “seu” Orélio? —  disse ele com os olhos injetados e com o mesmo sorrisinho que deram à Joana D’Arc e ao Tiradentes antes de baterem a caçoleta.

Fez algumas anotações numa prancheta e eu só querendo saber da mensalidade.

— O senhor tem feito exercícios em casa?

— Bem… o máximo que eu faço é levantar de manhã. Minha marca da cama ao banheiro está em 1m20s. Mas dá pra melhorar…

— Hummm… sei! — disse ele coçando o Monte Vesúvio —  Vamos fazer alguns testes pra ver sua performance.

Gelei até os ossos! Performance? Eu malemá consigo botar o tênis sem gemer. Aliás, na minha idade, colocar o tênis deveria ser uma modalidade olímpica. E o cara não deixou por menos esses testes… comecei com um aparelho de remada, exercícios para panturrilha, leg press, esteira, bicicleta ergométrica, levantamento de pesos… até que eu “joguei a toalha”. Se bem que a vontade era tirar o tênis e jogar na cara dele. O perigo seria ele comer meu tênis…

Fez mais anotações na prancheta, disse-me o preço, sempre coçando o Vesúvio, tatuado na coxa esquerda.

— Quantas vezes o senhor quer vir aqui na Academia?

— Bem… quem sabe, duas vezes…

— Por semana?

— Não! Por ano… e só nos bissextos!

Fui embora me arrastando…

Aurélio de Oliveira

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